FESTEJAR COM QUEM NOS VENDE HÁ 37 ANOS
Os quiosques na Cidade que há mais tempo vendem a Gazeta do Interior
A nossa crónica aborda o lugar que designamos por Quiosque. Baltazar Caeiro, na sua obra Quiosques de Lisboa, explica a origem termo do francês kiosque que, por sua vez, derivou do persa koushk e do turco kiouhk). Os primeiros quiosques surgem na principais capitais europeias, na segunda metade do século XIX e Lisboa e Porto foram as primeiras a terem esses espaços, expandindo-se depois em todas as cidades e vilas portuguesas. Castelo Branco não fugiu ao aparecimento do Quiosque com as suas bancas de jornais e revistas, que constitui um espaço de um “espetáculo semiótico”, segundo M. Iqani (2012 -Consumer Culture and the Media: Magazines in the Public Eye. London: Palgrae Macmillan), dado à profusão de informações, estímulos e ao apelo dos fluxos de pessoas que ali se apresentam a comprar algo. Essa “espetacularidade semiótica” está ligada à diversidade de produtos impressos, predominantemente revistas e jornais, em meio de outros objetos à venda, como seja de papelaria, livros, álbuns, tabaco, brinquedos, guloseimas e produtos variados.
Cada vez mais os Quiosques são menos de jornais e revistas, no contexto e fluxos citadinos, pois fornecem, cada vez mais, um leque diverso de serviços. As dinâmicas de transformação destes lugares coloca-los na memória coletiva e num passado vivenciado. Eles são pontos de diálogo com o seu entorno, entendidos como uma paisagem local, circunscrita e localizada na diversidade urbana. Podemos até referir que os Quiosques são lugares em trânsito onde se encontram pessoas, onde se produzem relações esporádicas ou duradoiras de sentido específico e imagens peculiares, sendo um fenómeno contemporâneo, simultaneamente presente, atuante e anacrónico. Estaremos perante a extinção dos jornais impressos e respetiva extinção dos Quiosques, com impacto no próprio jornalismo (local)?
Não trataremos, nem de diagnosticar o seu desaparecimento, nem de projetar, a partir deles, o seu futuro, mas sim de registar para a memória local as respostas daqueles que se dedicam, desde há muito tempo, logo pela manhã cedo a receberem os seus clientes, perante as transformações em andamento e as configurações do que “já foi”, do que “já é” e do que indicia vir a ser nas (novas) dinâmicas temporais. O Quiosque com a sua decoração tradicional para tantas infâncias e pessoas é hoje um ícone em risco, forçado a mudar de modelo de negócios, manifestando horas de atividade e outras de tédio, sem movimento.
Foi neste intuito que visitamos, no âmbito do 37.º aniversário da Gazeta do Interior, dois Quiosques emblemáticos de venda da Imprensa local em Castelo Branco, entrevistando a senhora Isabel e a senhora Palmira. São dois rostos que conhecemos há muito do dia a dia da cidade e as suas vivências revelam-se na sua história de vida, cheia de amizades, relações, afetividades, conhecimentos e interações.
O Quiosque
da dona Isabel
Maria Isabel Pinto de Jesus Cardoso Correia Fernandes, com 76 anos, nasceu em Coimbra e foi batizada em Verride, Montemor-o-Velho. Ao casar, em 1971, veio para Castelo Branco sempre com um gosto de dedicar-se ao negócio de papelaria. Adquiriu a loja do senhor João Francisco, que por motivos de saúde a vendeu com o seu recheio, a 1/11/1980. Dona Isabel, como vulgarmente é conhecida pelos seus clientes, mãe de dois filhos, teve o apoio do marido e da família nessa aventura de começar a dedicar-se ao setor de papelaria. Foi vendedora de distribuidoras famosas, entre elas a Jardim (coleções) e Midesa, que deixavam à consignação os carrinhos de coleções, álbuns e livros, brinquedos e bonecas que faziam a atração das crianças. Esta parte de papelaria era muito procurada por pais e crianças em idade escolar dos bairros circundantes. Recorda, com nostalgia, a dona do Quiosque da Rotunda da Europa, muitos pais mandarem os filhos a adquirirem o material escolar e até o jornal, de tal modo que algumas crianças levavam a carteira com dinheiro, da qual Dona Isabel retirava o respetivo pecúlio e introduzia um papel discriminado do gasto. Desta feita, viu crescer muitos filhos desses clientes e alguns deles vêm hoje visitá-la com a sua geração de filhos recordando/revivendo com estes muitos desses momentos passados no Quiosque.
Foi a finais dos 80, que observou em outros quiosques as bancas de jornais e sobretudo os semanários locais, que Dona Isabel desconhecia. Logo de imediato mostrou-se interessada em os vender, contactando os distribuidores (nacionais) e redações dos jornais da cidade Assim, começou a vender na sua banca a Gazeta do Interior, entre outros, para interesse dos clientes. O seu Quiosque passou a misturar a venda dos jornais/revista com a papelaria. Pouco a pouco criou um grupo de clientes que compravam Imprensa diária e semanal. Reconhece que a venda dos jornais diminuiu (em detrimento do jornal on line), exceto no período do COVID em que aumentou. Afirma dona Isabel: ”Não sei se com o andamento que isto está a levar daqui a alguns anos a Imprensa escrita ainda vai persistir. Lembro-me perfeitamente que há, 10 anos recebia 40 exemplares de jornais e agora recebo à volta de 10 a 15. A faixa etária consumidora situa-se a partir dos 50 anos e mesmo as pessoas com mais idade vão desaparecendo e os jovens compram escassamente, porque são seduzidos pela internet”.
Apesar da atividade comercial ter caído ultimamente, lembra-se dos seus fiéis clientes diários, referindo-se ao professor Matos e professor Luís, entre muitos outros que a memória lhe escapa, de tal modo, que houve tempos em que tinha que recorrer ao Vidal para adquirir Imprensa devido ao compromisso com os seus amigos clientes. Admite que a Gazeta como toda a Imprensa local vende-se menos ultimamente, já que hoje os Albicastrense dispõem e consultam em tempo real o jornal on line ou outros meios tecnológicos para estarem a par dos assuntos nacionais e do Concelho. No seu Quiosque persistem ainda clientes fiéis, com uma certa idade, que adquirem semanalmente o jornal (Gazeta), pois proporciona-lhes o papel um gosto especial de leitura sobre os assuntos do município. Dona Isabel lê e explora com uma atenção especial ao recebê-los semanalmente o seu conteúdo de modo a interagir por vezes com os clientes. A redução na venda da Imprensa local em papel é devido, segundo ela, à concorrência digital mais atrativa e esporádica, mas valoriza que o jornal como o da Gazeta, pela sua importância divulgadora e informativa junto da comunidade, pois constitui “uma forma comunicacional de literacia impressa de chegar aos cidadãos Albicastrenses”.
Dona Isabel que, vende há mais de 40 anos a Gazeta, está convencida que os Quiosques com a sua banca de jornais/revistas não desaparecerão no futuro. Possivelmente vender-se-á menos e nestes espaços haverá outros produtos diversos procurados pelas pessoas. O futuro destes negócios está na organização e controlo das vendas e devolução às distribuidoras e, simultaneamente na diversificação dos produtos: “talvez com menos jornais” mas “as pessoas ao entrarem com a ideia de comprar uma coisa levam outra por impulso”, afirmou.
Dona Isabel é uma pessoa que sempre manifestou uma avidez em ler, em ter um gosto especial pela leitura e em ampliar saberes, de tal modo que possui uma vasta biblioteca familiar e a Imprensa dá-lhe essa satisfação pela informação e notícias, dizendo que: “Não há nada como ter o papel nas mãos! Como sentir o cheiro do jornal e saber das notícias locais”.
Questionada sobre a importância do jornal local, dona Isabel considera que os semanários da cidade, como a Gazeta, devem fazer parte do cotidiano dos Albicastrenses descrevendo, analisando, interpretando e partilhando informação, pois essa mediação com os leitores e as estruturas do poder da comunidade e, ainda entre o território e os cidadãos faz criar essa interação necessária à participação pelas coisas e assuntos cotidianos locais. Acredita que o deserto de leitura de notícias que a Imprensa divulga é uma consequência dos tempos de hoje (jornalismo), devido à sociedade digital ou em rede muito mais mediática. Para ela o jornal, em espacial o local, mesmo diminuindo a sua venda nos últimos tempos e o fraquejar da sua aceitabilidade, assume um papel estratégico local (e até antropológico) na promoção da cidadania e da democracia (plural e participativa).
Dona Isabel felicita a Gazeta pelo seu 37.º aniversário, à qual deseja que mantenha viva essa aproximação aos leitores do Concelho/Região, na sua conexão com a realidade e problemas locais, a bem da comunicação divulgada, num compromisso com o quotidiano e na forma de ser construtor de notícias para os Albicastrenses. Augura para este semanário uma continuidade necessária de comunicação e interação, tão útil à literacia dos cidadãos do Concelho, ao fornecer-lhes notícias, sucessos, acontecimentos, informações das autarquias, relatos, necessidades, projetos e muitas questões do dia a dia das populações locais.
O Quiosque
da dona Palmira
Palmira Maria Veríssimo Marques Roldão, de 80 anos, nasceu em Castelo Branco, criada com desafogo financeiro, devido à herança dos seus padrinhos. Algumas desavenças com a madrinha levam-na, com 22 anos, a empregar-se na Papelaria Semedo, no centro da cidade. Casou, teve filhos e seguiu empregada na papelaria, enquanto o marido se dedicava a uma loja de tintas, na Rua Dadrá. Mas o seu dinamismo empreendedor e a situação financeira da Semedo na época, levou-a a mudar de rumo e de imediato comunicou ao responsável que se ia embora, a que este retorquiu: “Só os bons é que se vão embora”, num reconhecimento do seu valor e dedicação à empresa.
Em 1985 abriu o Quiosque Tabacaria Tiagos junto à Escola (Agrupamento) Amato Lusitano e aí começou a vender Imprensa diária, incluindo os semanários locais (entre eles a Gazeta), revistas, livros, tabaco e diversos produtos, para além de ser agente/mediador de jogos e lotarias da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Pouco a pouco gerou, foi gerando uma empatia com as pessoas, que a valorizam na sua interação com eles, a forma aberta e frontal no que diz, a delicadeza na comunicação, sendo por isso, muito reconhecida pelos seus fiéis clientes, que diariamente vêm adquirir o seu jornal diário e o semanário, para além de alguma revista específica. Essa familiaridade relacional com os clientes e a forma de cativar a sua amizade deve-se à sua maneira de ser, de tal modo que, ainda hoje, no dizer dela “três clientes logo às 7h30 me esperam e a ajudam na organização da sua banca, de modo a abrir ao público às oito horas e até me trazem um café”.
Ao receber a imprensa dona Palmira tem tempo para uma visualização exploratória das notícias e dos seus conteúdos, com uma atenção mais detalhada aos jornais locais, como a Gazeta do Interior, a qual aprecia. Considera que a Imprensa e, especialmente a local, tem diminuído as suas vendas ao público, já que hoje em dia “as pessoas preferem o jornal digital e internet”, apesar no período do COVID ter havido um incremento de vendas de jornais/revistas e tabaco. Para ela as pessoas deviam continuar a ter gosto da leitura impressa, como no seu tempo, pois segundo nos disse “o ler leva-nos a pensar e aprofundar a informação lida sobre notícias, sucessos e acontecimentos escritos, apesar da concorrência dos meios tecnológicos que temos”. Os seus fiéis clientes, de muitos anos, muitos deles com uma certa idade, possuem “esse gosto de ler, de sentir nas mãos o jornal e folheá-lo, de poder analisar e explorar a informação, que serve, por vezes, de conversa” ou comentários de café ou algum diálogo com os amigos. Diz dona Palmira que a parte da Necrologia, as publicações notariais e algum artigo são as mais procuradas por esses leitores semanais.
Considera a dona da Tiagos que à medida que os cidadãos têm menos oportunidades de informação ou de acesso a ela, neste caso de notícias e acontecimentos locais, transmitidas pelos jornais impressos como a Gazeta, “vai-se enfraquecendo o domínio de conhecimentos e participação cidadã pelas políticas públicas locais”, tão importante à vida cotidiana dos Albicastrenses. A Imprensa local tem “um bom papel comunitário e cultural, de grande relevo…. faz-nos pensar” e, por isso, devemos valorizar essa utilidade para a cidadania do jornal, de preferência o impresso, sabendo “que os mais jovens tendem para a leitura do digital”. Ela está ciente que o jornal como a Gazeta promove o gosto nos leitores mais velhos, pela forma de noticiar acontecimentos/sucessos e problemas que dizem respeito a quem cá vive no Concelho ou região, ou seja, o jornal “aproxima a notícia com o cidadão…e leva-o a comentar e pensar sobre o que lê” e neste intercâmbio age como um repositório de memórias que a narração constrói e consolida a identidade e sentido de pertença à comunidade.
Dona Palmira no seu empenho e dedicação pelo seu negócio e na forma racional com que o gere com as distribuidoras e empresas de produtos acredita que os Quiosques se manterão no futuro sempre que o saibam levar bem de forma controlada, apesar da tendência destes espaços terem mais produtos diversos que não sejam os habituais de jornais, revistas, tabaco e livros e no seu caso de agente de jogos e lotarias. Disse-nos que “na prática o modelo vigente é o de consignação pelas distribuidoras” (direito de devolução), em que a propriedade da mercancia permanece no provedor até à venda e a faturação só é emitida no momento em que ela é vendida. Ora isto requere preocupação/controlo e uma boa gestão, incluindo os portes na devolução, muitas vezes com reclamações, como nos disse dona Palmira.
Para ela o Quiosque sobrevirá, talvez com dificuldades, mas reivindica o seu conceito tradicional e antropológico, realçando e valorizando a compra da Imprensa, do observar e navegar pelos produtos expostos, da fantasia das capas das revistas e jornais expostas na banca. Acredita que “uma comunidade sem estes espaços é uma comunidade enfraquecida democraticamente, pois deixa de haver interações entre o vendedor e os clientes, para além de gerar relações de amizade e convivência esporádica diária”, tão necessária na nossa sociedade. Dona Palmira aconselha “comprarem jornais, a lerem jornais incluindo os locais…., pois eu recorro a ela quando me quero informar e saber coisas sobre questões da atualidade, mesmo que vá à internet a ler notícias. Mas lê-las no impresso é qualquer coisa de diferente, para melhor! É diferente ter uma notícia desenvolvida, na mão, do que ter um parágrafo, no ecrã (telemóvel)”. Ao longo destes anos a dona da Tiagos guarda histórias, muitas delas esquecidas neste lugar de paragem e no tempo de muitos dos seus clientes assíduos e até de alguns transeuntes apressados que ali compram o jornal, a revista ou jogam no Totobola e em outros jogos/lotarias. Para ela cada dia que passa é demonstração de servir bem os clientes.
Desde do seu Quiodo Interiorsque dona Palmira desejou felicidades neste 37.º aniversário da Gazeta, que continue a estar presente no seu espaço de venda e em outros espaços da cidade, nesta sua labuta diária expressa a sua generosidade, dedicação e afabilidade para os Albicastrenses. O seu Quiosque como o da dona Isabel são “lugares de ambiências comunicacionais”, que atuam como disputas de memória e de visibilidade, na medida em que operam como difusores de informação da nossa cidade e, nisso, são ao mesmo tempo a ponta oposta do setor de produção e a principal interface entre vendedor e leitor dos meios de comunicação impresso. Os Quiosques de venda de jornais não se integram ao espaço citadino como um dado imutável: são configurados e agentes de relações concretas com entorno, um fragmento do tecido urbano em que estão situados e do qual são situantes.
Ernesto Candeias Martins