Joaquim Bispo
AS INCERTEZAS DE CRPT
(Anteriormente: Um robô em serviço arqueológico, no futuro, debate-se com problemas éticos sobre uma tarefa a realizar.)
Continuação: Com dificuldade, ligou mentalmente a unidade de energia sobressalente e moveu-se para o exterior. O sol atingiu as nanocélulas fotovoltaicas embebidas no revestimento, o que lhe transmitiu ânimo, e a angústia desvaneceu-se.
Iria a Bagdad pedir ajuda a uma unidade cibernética de pesquisa e deteção, a única a que alguma vez se afeiçoara. Era muito estimada na escavação de Ur e um arqueólogo Homem chegou a apaixonar-se por ela. Mas a Delegação agiu sem demora e os amantes foram deslocados para escavações separadas. Agora, dedicava-se à descoberta, identificação e recuperação dos objetos do antigo museu de Bagdad, dispersos aquando de uma invasão oriental, numa das primeiras Guerras do Petróleo.
A consciência cibernética dele proibia que lhe revelasse as instruções recebidas. Arriscava que lhe reeducassem o processador central e o fizessem mergulhar temporariamente na ausência de computação e mesmo de funcionamento elementar, mas, sem ajuda, o desempenho da missão podia estar em perigo.
psQs recebeu Crpt com algumas manifestações de agrado, o que o reconfortou. Analisaram ambos a situação, e também psQs estranhou a instrução que Crpt recebera. O protocolo de origem parecia regular, mas vago - Base Ur -, e os dados individualizados do emissor estavam encriptados.
Ela lembrou-se, então, de calcular a que ano, da era em vigor na época das guerras do petróleo, equivaleria o ano em curso. Intuição certeira: 2899. O que poderia denotar uma instrução codificada com referências de mais de 600 anos? Seita cultora do passado? Brincadeira de técnicos cibernéticos? Porquê Natal?
psQs ficou silenciosa e introspetiva durante uns momentos. Depois, revelou que tinha acesso a um descodificador de comunicações encriptadas pelo método Ling; que, se ele quisesse, podiam tentar abrir a mensagem. Entre o pecado cibernético e o perigo de trair o Conselho, Crpt optou pela transgressão.
O descodificador era adequado. Cautelosamente, acederam à identidade do emissor: “Arq. Lalit Chandra”. Ambos reconheceram o nome do vaidoso arqueólogo de Ur, especialista da civilização suméria, que denunciara o envolvimento do arqueólogo Gellert com psQs. Dizia-se que realizava rituais de religiões antigas. A seguir, descodificaram a mensagem encriptada:
“Gilgamés”! Soube que foste colocado nessa base de elite, depois do episódio lamentável com a nossa “amiga” cibernética. Se estás a ler esta mensagem é sinal de que a lata eletrónica que a leva é tão arguta como eu suspeitava. Tive de criar uns enigmas na instrução, para contornar o controlo de comunicações.
“Gilgamés”!, grande amigo! “Enkidu” não te esqueceu. Como podia? Fazíamos uma equipa imbatível, coesa em todos os aspetos, que ainda hoje é lembrada em Ur. Andávamos sempre juntos, adorávamos estar juntos, por isso nos deram estes epítetos mitológicos que adotámos com gosto. Éramos tão felizes!
Não, “Gilgamés”! “Enkidu” não te esqueceu. Nem te perdoou. Como pudeste rejeitar-me, envolver-te com… Não passava de uma criação de engenheiros cibernéticos, uma escavadora com mamas. Nunca aceitei a rejeição, nunca a aceitarei.
Presumo que estejas bem instalado, se calhar bem acompanhado. Eu? Chafurdo na lama mesopotâmica. Sozinho. Terrivelmente triste. Alucinadamente ressentido. Por isso te envio esta prenda, com um voto de sonhos felizes. Bye!
Os amigos só puderam abraçar-se, antes que a explosão levasse metade do edifício do alojamento de psQs.
Na Delegação de controlo cibernético de Kandahar, perdeu-se, de repente, o sinal de duas unidades em Bagdad.