João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
HÁ ALGUMAS SEMANAS ATRÁS, por proposta do PSD o Parlamento aprovou o diploma que faz subir de 13 para 16 anos a idade mínima de acesso livre e autónomo de acesso às redes sociais. Não permitida em caso algum, até aos 13 anos, idade em que o acesso é condicionado ao consentimento expresso e autenticado dos pais, sendo a autorização sujeita a um mecanismo de verificação da identidade, “através do sistema Chave Móvel Digital, ou outro sistema idóneo semelhante”. Este é um tema que tem estado no centro das preocupações, do debate político e social não só em Portugal como na Europa e em todo o Mundo. Há alguma consensualidade sobre a necessidade de proteger o adolescente dos perigos do acesso irrestrito à informação que é difundida nas redes, tantas vezes falsa, de proteger a sua saúde mental e emocional, protegê-lo dos ataques de cyberbulling.
Num voto coerente, quem votou contra a aprovação do diploma foi a Iniciativa Liberal, argumentando que a medida é um “paternalismo estatal” que retira o poder de decisão às famílias e que a proibição não resolve os problemas de literacia digital, aspeto em que estamos de acordo; o outro partido com o mesmo sentido de voto foi o Chega, criticando a excessiva vigilância estatal sobre o comportamento dos cidadãos. No caso do Chega, até se compreende e tem justificação, porque é o partido que tem mais presença e seguidores no Tik Tok, por excelência, a rede dos adolescentes, futuros possíveis votantes no Chega.
Passemos pela evidência de que reprimir ou proibir nunca será a melhor solução. Mas alguma coisa teria de ser feita, só que temos de juntar a esta um conjunto de medidas que afastem os jovens de uma prática viciante e condicionadora do seu desenvolvimento intelectual e emocional. Como se combate o vício do tabaco ou do álcool, também é altura de estar atento ao que os algoritmos estão a fazer (e não é coisa boa) aos nossos jovens. Não podemos dar toda a responsabilidade à escola para enfrentar este problema, que é global. Também passa muito pelos pais. Não podem exigir aos filhos aquilo de que não são capazes, que é pôr de lado os ecrãs, na hora em que o diálogo em família é essencial.
A proibição de telemóvel na escola aos alunos até ao nono ano está a ter sucesso, sem grande contestação. E reconhece-se que, onde antes havia grupos, quais zombies, de cabeça curvada para o ecrã, agora já se ouvem saudáveis gargalhadas, conversas intensas e correrias nos corredores e nos pátios das escolas aderentes. E o melhor exemplo daquilo que se pode fazer, porque isto anda tudo ligado, vem da Suécia, um país pioneiro na digitalização total das escolas. Com os tablets e portáteis, desceram os indicadores de sucesso de leitura. Estudos indicaram que os alunos tendem a “passar os olhos” no ecrã, fazer scrolling, em vez de ler com atenção, o que compromete a compreensão do texto. Por isso, trouxeram de volta os livros, o caderno, a caneta e o lápis, deu-se novamente ênfase à prática da caligrafia e ao uso de papel e lápis, fundamentais para o desenvolvimento cognitivo.
Não se renega de todo o digital, isso seria querer segurar o vento com as mãos. O digital é usado para competências específicas. O livro físico é a base para a literacia, foco e memória.