Edição nº 1939 - 25 de março de 2026

Elsa Ligeiro
ANTÓNIO LOBO ANTUNES

A menos que os seres humanos deixem de ler e escrever, António Lobo Antunes permanecerá como um farol do que é a escrita; e porque valerá a pena sair do nosso mundo quotidiano para perder-nos no Tempo da Leitura.
Esse tempo que nos parece perdido, mas que, afinal, é apenas o tempo que alguém guardou na memória, fixou, e nos representa enquanto protagonistas da história.
Ser escritor é uma profissão rara. E a perda da consciência do que representa um autor numa sociedade do século vinte e um; começa a ser preocupante.
Até parece que, agora, para se ser autor basta pagar a uma empresa especializada para transformar qualquer diletante em autor ou autora com direito a apresentações na casa da cultura ou biblioteca municipal, com a inefável sessão de autógrafos em livros comprados por familiares, amigos e vizinhos.
Um claro exemplo de que tudo se compra e se vende nos nossos dias, esvaindo-se na superficialidade a grande arte matriz da civilização que é a literatura.
A superficialidade com que agimos com valores nobres como são as artes, a história e a construção de uma narrativa da natureza humana, representa uma capitulação clara do respeito pelo trabalho e pela conquista demorada de leitores.
Numa das suas primeiras crónicas, António Lobo Antunes trata de informar-nos da idade em que decide ser escritor. Escreve-o com a memória de elefante que todo o autor deve possuir, mas já com a sagacidade de que afinal isto de ser escritor não passa de uma necessidade de aventura, ou não confessasse nessa crónica: ”quando por volta dos oito anos de idade resolvi dedicar-me à literatura imaginava que todos os escritores sem exceção se pareciam com o Sandokan Soberano da Malásia”; com o tempo lá descobre que o melhor é procurar um modelo mais próximo; e lá lhe apontam o José Blanc Portugal como um grande poeta, que ainda não tinha lido, mas que o inspirou a engordar comendo carcaça com geleia atrás de carcaça para se tornar num corpo de poeta, alto e gordo.
Aluno no Liceu Camões, viu em Vergílio Ferreira um exemplo a seguir; e lá treina o ar sério e de angústia ao espelho para se manifestar à mesa com uma insolente e obstinada melancolia; e, numa verdadeira atitude existencialista, recusa à mesa os croquetes de que tanto gosta, com a família a interrogá-lo:
- O menino é parvo ou faz-se?
Ao que ele respondeu com firmeza: - Os escritores são assim.
Depois de continuar a ler e a reler mais do que a estudar lá lhe disseram que o Flaubert é que era o melhor exemplo de um grande escritor; mas como a epilepsia não se aprende, decidiu, finalmente, fazer o que de facto gostava: ser jogador de hóquei em patins e produzir “obras-primas” nos intervalos.
Foi o que fez durante a adolescência e juventude, praticando.
Como acabou romancista ele não explica, talvez porque ser romancista não é bem ser escritor ou o grande escritor que António Lobo Antunes acabou por se transformar através da prática.
O que António Lobo Antunes conseguiu foi ser um observador implacável deste nosso mundo que ainda não aprendeu a viver sem a guerra e a conquista.
Uma permanente luta entre a civilização e a barbárie que ele conheceu no terreno; pois apesar de médico e de boas famílias, não escapou à guerra em África.
Guerra que todos querem saber como é, como foi, desde que a considerável distância geográfica ou, bem melhor, através dos livros ou do cinema.
Mas há os sobreviventes; os que por lá passaram e a sentirem no corpo; a que António Lobo Antunes, que também passou pelo inferno, descreveu com a suas inomináveis amputações físicas e mentais, quando não a morte em combate.
De regresso ao Hospital em Lisboa, continua a escrever a vida dos outros, dos seus doentes alienados e presos a um passado sem nenhum futuro; e depois, já só como escritor, dos suburbanos com quem nos cruzamos no metro ou nos autocarros e acompanhamos disfarçados na visita às montras do centro comercial.
O escritor revela tudo, tudo, nas páginas dos seus livros ou crónicas, até os nossos e os seus segredos mais bem guardados.
As palavras que mais me comoveram nestes dias de despedida foram as do seu irmão Nuno, no texto que leu no Mosteiro dos Jerónimos, com a sinceridade que os leitores e o António merecem, “acusando-o” de lhe roubar todas as memórias.
Porque ser “o louco da casa”, na expressão imortal de Teresa de Ávila que Rosa Montero usou como título num dos seus livros, não deixa espaço para que nenhum outro, mesmo irmão, as utilize como suas.

25/03/2026
 

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