João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
A PÁSCOA É, talvez, a celebração mais multifacetada do nosso calendário, funcionando como uma ponte entre o sagrado e o profano, o fim do inverno e o início da primavera.
Para o Cristianismo, a Páscoa é a festa central do ano litúrgico, superando até o Natal em importância teológica. Simboliza com a Ressurreição de Jesus, a passagem da morte para a vida e do pecado para a salvação.
Marcando o fim da Quaresma, e das restrições do consumo de carne e do jejum, a Páscoa é período de grande riqueza gastronómica. O cabrito e o borrego faz parte da ementa obrigatória, o folar, doce ou salgado, é património gastronómico de muitas comunidades de norte a sul, e muita doçaria que, há algumas dezenas de anos atrás e ao contrário de hoje, até pela pouca fartura da época, era mesmo só consumida nas festas pascais, quando os fornos de lenha da aldeia não chegavam a arrefecer para assar as carnes, fazer biscoitos, broas e o bolo pascal por excelência, que na nossa Beira, sendo o mesmo, toma nomes tão diferentes: bolo de festa, bolo dormente, finto ou de mel (mesmo que não tivesse uma colher de mel que fosse).
E o mote desta crónica tem a ver com estas memórias, marcadas por um momento alto nos festejos. O Compasso, como é mais conhecido no Norte, ou a bem beirã Visita Pascal. O toque da campainha e a entrada do crucifixo nas casas das pessoas servem para “abençoar o lar”, mas acabam sempre numa mesa cheia de doces, amêndoas e alguma outra oferenda, tapada por um paninho bordado, reforçando os laços de vizinhança. E é aqui que entra o padre António.
Recordo com ternura o padre António, pároco das freguesias de Sarnadas de Ródão e Benquerenças. Homem santo, perfeitamente integrado na comunidade de cuja alma cuidava. Multifacetado caçador, pescador, apicultor, agricultor, sem esquecer a animação mais pagã através da sua aparelhagem sonora que disponibilizava para sonorizar festejos. Na aldeia, a Visita Pascal incluía todas as casas, incluído as dos lugares à volta, Azinheira e Monte Baixo, que hoje são aldeias abandonadas, belas casas de xisto em ruínas. À frente, com a campainha a anunciar a chegada do padre António, ia o meu amigo Joaquim B. Houve um ano que, passado uma hora da chegada do rapaz da campainha, o padre António não havia meio de aparecer. O que teria acontecido? Foram ver o que se passava e ninguém foi capaz de o culpar ou criticar por à saída do Monte Baixo, ter pousado a cruz, despido a sotaina e paramentos, para ir buscar a algum lado um cortiço que recolhesse um enxame de abelhas que se lhe atravessara no caminho.
Lembro também o episódio contado por ele na igreja, durante a celebração da missa, de como numa manhã de pesca no rio, um pastor da aldeia, não o tendo reconhecido, se lhe dirigiu anunciando que não valia a pena andar ali porque o c***** do padre das Benquerenças já tinha pescado tudo. Contado aos paroquianos com um sorriso de menino grande que desarmava qualquer um.
Esta proximidade e autenticidade, fazia com que todos o sentissem como fazendo parte da sua comunidade de corpo inteiro e fosse olhado com desvelo e carinho. E é tudo isto que faz com que o padre António perdure na memória de todos aqueles que têm idade suficiente para terem convivido com ele. As memórias são cimento da vida comunitária. Por isso quis aqui recordar este homem da Igreja que, além do mais, também alimentou a nossa fé e crença religiosa.