Edição nº 1943 - 22 de abril de 2026

Elsa Ligeiro
A LÍNGUA QUE NOS UNE

A Língua que nos une é, provavelmente, o suporte que nos permite estabelecer relações de fraternidade com países em que os antigos conflitos (a história é, todos o sabemos, lentíssima) ainda não foram esquecidos.
É a Língua Portuguesa que nos permite uma melhor liberdade de expressão artística; a que devemos valorizar para uma maior proximidade comunitária no trabalho, no estudo, na partilha de ideias e emoções, em suma: numa diversidade social e cultural de partilha.
Sabemos, por experiência, que partilhar a história com um outro país, no campo político e no social, cria memórias de ódio e amor; de violência e apaziguamento, mas também de lágrimas e abraços de reconciliação.
A arte, através da literatura, do cinema, do teatro, da música, e tudo o que enquanto seres humanos somos capazes de criar na transcendência das nossas limitações, tem o condão de criar empatia, conhecimento, revelação do que somos, nas nossas mudanças e valores; e apontar-nos novos caminhos de cooperação e parcerias.
Como a que estabelecemos com o Brasil, país distante na geografia, mas com uma vocação próxima, através da história e da Língua, como o mítico refúgio de D. João VI durante a invasão napoleónica; que acabou por levar o Brasil à Independência; e em 2026, nos encontros diários com quem nos serve o café, vende o pão, partilha connosco o lugar no autocarro ou lê as sílabas todas de um poema de Eugénio de Andrade na Biblioteca de Alcains.
A África que nunca foi minha, é esplendorosa na voz de Cesária Évora, na presença dos estudantes da Guiné-Bissau ou de Angola que estudam no Instituto Politécnico de Castelo Branco; ou na escrita de Conceição Lima, Vasco Martins, Rita Ié, José Luís Mendonça e Luís Kandjimbo que editei em livro e que permanecem como ecos de países que contrastam com as histórias dos retornados que fui ouvindo como desabafos e nostalgia de um tempo, para eles, de luz perfeita e de grandes horizontes que nunca encontraram em Portugal
No próximo dia 1 de maio, regressa a Castelo Branco “A Língua Toda”, onde nasceu em 2009, num programa que ainda permanece na memória de muitos, onde se destaca a presença de Luandino Vieira, o que conheceu a prisão do Tarrafal, recusou o Prémio Camões, e partilhou connosco a alegria de um abraço com as suas memórias do cárcere, transformadas em superação, liberdade e alegria.
Memórias cruzadas com as de Fernando Paulouro Neves, herdeiro de um jornal que noticiou o prémio da SPE ao livro “Luuanda” como um exclusivo nacional; o que, sabemos, pagou caro, mas que marcou a história do jornalismo em Portugal.
Também regressa Rui Zink, que esteve em Castelo Branco em 2009, com o seu “Destino Turístico”, que nem ele sabia na altura como esse livro estava à frente do seu tempo; e que hoje comprovamos que era um presságio deste novo tempo em que tudo se vende, até os cenários de guerra, como entretenimento.
Em maio, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, traz-nos um novo romance com que tentará salvar o mundo.
Mas será a poesia e a prosa de Noémia de Sousa e Rui Knopfli , de Moçambique; Alda Espírito Santo e Conceição Lima, de São Tomé e Príncipe; Jorge Barbosa e Vasco Martins, de Cabo Verde; Ana Paula Tavares (Prémio Camões 2025) e Viriato Cruz, de Angola; Rita Ié, da Guiné-Bissau; Jorge Laute, de Timor; Vimala Devi, de Goa; Paulo José Miranda e Andreia C. Faria, de Portugal; e Oswald de Andrade e Caetano Veloso, do Brasil; que na sua diversidade cultural e estética fará da Língua Portuguesa um traço de união forte, entre quem a escreveu e todos os que darão corpo à Leitura Comunitária “A Língua que nos une” transformando o Parque da Cidade de Castelo Branco em espaço de fraternidade lusófona; provando que a Literatura ainda é a arte que nos permite fixar, através da edição, toda a diversidade da Língua Portuguesa, património comum que nos compete a todos preservar e ajudar a crescer.

22/04/2026
 

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