Edição nº 1946 - 13 de maio de 2026

Antonieta Garcia
EMBURRICA! NUNCA MAIS BRINCO CONTIGO!

- Ana, Ina, Não! Ficas tu, eu não...
Com este projeto, criava-se uma tarde de convívio real, de confraternizações, de bem-estar.
Expressões de identidade cultural preservaram usos e costumes ancestrais, aprenderam e divulgaram tradições. Na formação das rodas, quanto mais participadas melhor, lembravam-se saberes e fazeres regulamentares.
Os jogos foram ajustados por diferentes regiões do país; de norte a sul, conservaram uma diversidade de entretenimentos que a criatividade continuava, passados séculos, a cativar crianças e adultos, promovendo novas utilizações.
As narrativas não se perdiam... Falávamos dos jogos da Cabra-Cega, da Macaca, das Escondidas, da Corrida de Sacos, do Anel, do Berlinde, do Galo, do Lenço, do Pião, do Gato e do Rato...e muitos contos e cantos fariam fila para alargarem referências. Saltar à corda, por exemplo, era um desafio. A alegria reinava nos espaços amplos onde rapazes e raparigas se divertiam, lembravam e renovavam regras da Dança das Cadeiras, do subir ao Pau Ensebado, não esquecendo o jogo das Cinco Pedrinhas...
São inúmeros os jogos tradicionais, e reiteramos que desempenham um papel importante na preservação da cultura, da identidade e ajudam a revigorar os laços sociais, a promover a interação entre as pessoas e a manter vivas as suas memórias. Ouvia-se:
- A ronda! É a ronda! Quem quer que se esconda... Aí vou eu!
A Cabra-Cega era um jogo insubstituível.
Praticado em vários países, é um jogo coletivo. Um dos participantes é escolhido para personificar a Cabra-Cega; de olhos vendados, coloca-se ao centro da zona de jogo, da roda. Tenta agarrar outros parceiros. Percorre o espaço 3 a 4 vezes. O jogador que foi preso e identificado será o próximo a usar olhos vendados. Neste jogo não há um número certo de jogadores.
Dialogam:
- “Cabra-Cega, donde vens?”
Está formada a roda da Cabra-Cega; tocam-lhe levemente, questionam:
- “Cabra-Cega, donde vens?
- De Castela.
- O que trazes?
- Pão e canela.
- Dás-me um bocadinho dela?
- Não! É para os meus filhinhos.”
Ou noutra versão:
“- Cabra-Cega, donde vens?
- Do Minho.
- O que trazes?
- Pão e vinho.
- Dás-me um bocadinho?
- Não! É para os meus filhinhos.”
Por princípio, não se aceitavam emburricas, no jogo. Várias criaturas manhosas que cruzavam os dedos, em voz alta, explicavam:
- Emburrica! Nunca mais brinco contigo!
Mas nunca era “nunca mais”!
No Verão, as brincadeiras viviam-se nos largos, nas ruas alargadas. As raparigas dançavam de roda, contavam histórias... Outras jogavam à bola; uma parede alta (1º andar, no mínimo), um sítio sem carros, um grupinho de cachopas mais uma bola de borracha, nem muito pequena nem muito grande, era suficiente para viver uma tarde de sonho.
- Quem começa a jogar?
Bola nas mãos, proclamavam-se, em voz alta, e executavam-se as indicações contidas em cada verso: 1- “Ao ar!” (a bola voava até à parede) /. 2- “No seu lugar” /. 3- “Sem rir!” /. 4- “Sem falar” /. 5- “Com um pé!” /. 6- “Com o outro” /. 7- “Com uma mão” /. 8 - “Com a outra” /. 9- “Bate palmas” /. 10 - “Rebolar” /. 11- Bate palmas “Atrás e à frente” /. 12 - “Cruzar” (cruza as mãos sobre o peito) /. 13 - “Bailar” (dá uma volta inteira e pega a bola). Retoma o texto nos treze procedimentos. Treze vezes! Número de azar? O programa completo exigia, sem dúvida, treino e agilidade. Entretanto, durante o jogo, havia olhos que marcavam todas as faltas: - Poisaste o pé no chão! Apanhaste a bola e não deste uma volta inteira…
Cada participante desmentia erros cometidos. Convictamente?
- Ana, Ina, Não...

13/05/2026
 

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