Edição nº 1951 - 17 de junho de 2026

Maria de Lurdes Gouveia Barata
HISTÓRIA ANTIGA ACTUALIZADA

Aqui estamos, no meio do ano, que é característica do mês de Junho, guardando um passado de ainda ontem e um futuro de dia seguinte, que se exprimem em coisas que estamos a viver e outras que estamos a pensar viver. Para já, está a chegar o Verão, que oficialmente entra no solstício de 21 de Junho, embora, ironicamente, já se tivessem feito sentir dias de calor anormais para a época. E depois vêm as férias noutros lugares e o relaxamento num espaço novo, querendo para mim o mar. Junho permanece com especial apelo para fora, como átrio de Julho e Agosto.
O dia inaugural de Junho é importante devido à celebração do Dia Internacional da Criança, instituído quando da realização da Conferência Mundial para o Bem-estar da Criança, que decorreu em Genebra em 1925. Foi após este evento que vários países adoptaram o dia 1 de Junho como data para a comemoração deste dia. Contudo, a ONU reconheceu o dia 20 de Novembro como o Dia Mundial da Criança, por ser a data que assinala a aprovação da Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1959, mas também por marcar neste mesmo dia, o 20 de Novembro, em 1989, a Convenção dos Direitos da Criança.
Sim, a Criança tem direitos. Lembremos, por exemplo, que as experiências emocionais na primeira infância têm um impacto duradouro no desenvolvimento do ser humano. Como é costume dizer-se, isso está nos livros e decorre de muitos estudos científicos. Experiências emocionalmente positivas, como o carinho, o afecto e a atenção de quem acompanha o crescimento e o desenvolvimento contribuem para a formação de uma base emocional sólida. Por outro lado, experiências emocionalmente negativas, como negligência, abuso, abandono e sofrimento podem afectar negativamente o desenvolvimento humano, cognitivo e emocional, moldando as bases da personalidade, da identidade e das capacidades futuras, ponto crucial para saúde mental e social na vida adulta. A criança tem direito a protecção e a um envolvimento saudável e pleno.
Como não amar as crianças?! Por interesses egoístas e injustificáveis, que vêm de histórias antigas. Proponho a leitura de um poema de Miguel Torga (Diário I):
HISTÓRIA ANTIGA
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

A velha história de Herodes actualiza-se nos nossos dias com a mesma crueldade, não por ordem directa de mandar matar crianças, mas por não respeitar a morte de crianças que as guerras que atormentam o mundo arrastam, por obsessões de poder – escolho os exemplos da Ucrânia e da Faixa de Gaza.
Passaram quatro anos desde o início da guerra na Ucrânia e há quase 2,6 milhões de crianças deslocadas. Os dados foram divulgados por Munir Mammadzade, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Segundo Mammadzade, quase 1,8 milhão dessas crianças vivem como refugiadas fora do país, enquanto mais de 791 mil estão deslocadas dentro do próprio território ucraniano. Para as crianças ucranianas a vida é uma questão de sobrevivência. Milhares de crianças ucranianas raptadas continuam na Rússia. O representante da UNICEF afirmou que os ataques contra áreas civis continuam em todo o país, destruindo a vida das crianças, as suas casas, as escolas, os hospitais e as infra-estruturas das quais dependem. Um cálculo, apenas cálculo: desde o início da guerra na Ucrânia, pelo menos 3.120 crianças foram mortas ou feridas, com o número real provavelmente sendo ainda maior.
Um relatório da UNICEF apontou que 64 mil crianças morreram (incluindo mil bébés) ou ficaram feridas durante a guerra na Faixa de Gaza. A psicoterapeuta infantil Katrin Brubakk, da organização Médicos Sem Fronteiras, dá notícia do sofrimento silencioso das crianças de Gaza, que perderam a capacidade de falar como reacção aos traumas da guerra, que vão afectar gravemente o seu futuro. Adam, de cinco anos, uma criança alegre e falante, deixou repentinamente de falar e de interagir com o mundo – um exemplo entre vários.
Finalizo com o poema «Amizade» de António Salvado (Cicatriz):
Uma criança muito suja atira pedras a um cão. O cão
       não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
       para lhe lamber o rosto.

Há, depois, um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a mãozinha muito
suja no pescoço felpudo do amigo, lá vão, pela rua estreita, em direcção ao sol.
E encerro assim para deixar uma pergunta que está no coração de qualquer ser que seja humano: qual a criança que não merece um quotidiano de paz e amizade, qual a criança que não merece um caminho que a leve em direcção ao sol?!

17/06/2026
 

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