José Dias Pires
FREGUÊS OU VIZINHO ONDE ESTÁ A VERDADEIRA DIMENSÃO DA CIDADANIA?
Há um equívoco primacial nas redes sociais, cada vez mais projetado nas vivências comunitárias.
Criadas para dar amplitude ao conceito de esfera pública desenvolvido por Jürgen Habermas nos anos 60 do século passado (um espaço em que os cidadãos se encontram para debater assuntos de interesse comum, trocar, livremente e sem coerção, argumentos racionais fundados no contraditório), em menos de 20 anos, as redes sociais transformaram-se em arenas de hostilidade, onde gritar é (aparentemente) mais eficaz do que argumentar e o contraditório (absolutamente) desnecessário.
É inegável que as plataformas digitais, ao romperem com os monopólios dos meios de comunicação massiva tradicional, encurtaram distâncias, democratizaram o acesso à informação e diversificaram os formatos narrativos, tornando-se em espaços de mobilização social e propiciadores de visibilidade para causas de toda a ordem e, em simultâneo deram impulso a oportunidades de negócio, fomentaram o empreendedorismo digital, a economia criativa e os princípios colaborativos globais.
Contudo, o que se apresentava como janelas escancaradas de liberdade pura, foi-se transformando em espelhos de egos descontrolados onde o imediatismo da escrita atropela a reflexão, e o julgamento instantâneo substitui qualquer tentativa de compreensão ou fundamento.
As redes sociais que prometiam aproximar vozes distantes sem afastar os silêncios necessários, deram (dão) palco a linchamentos morais, a tribunais da indignação e ao prazer perverso de destruir reputações na praça pública.
É este o seu equívoco primacial: a utopia digital cede lugar a uma distopia quotidiana, disfarçada de conveniência e conexão. Vivemos imersos num ruído incessante, onde a atenção gratuita é explorada e disputada como nunca antes.
É este o cenário que suscita a pergunta de cabeçalho: Onde está a verdadeira dimensão da cidadania que, na dimensão autárquica nos coloca perante o dilema de saber o que somos (devíamos ser)? Fregueses ou vizinhos?
Há, de facto, uma dicotomia no que a estes conceitos concerne. Ela é mais evidente quando projetada no e para o campo da política autárquica.
Na verdade, na vivência autárquica nem sempre estar em cima (do acontecimento) significa estar perto (do problema) e muito menos estar próximo (da solução).
Com frequência, o debate público nas redes sociais, cada vez mais contaminado por ofensas, calúnias e desinformação, perde qualidade e profundidade por falta de fundamento e de enquadramento.
Hoje, com as redes sociais tornou-se, felizmente, mais fácil a participação das pessoas no que ao exercício da cidadania concerne, quando ele se sustenta em convicções informadas e fundamentadas sobe as questões comunitárias.
E é aqui que os dois conceitos que antes referi (freguesia e vizinhança) se confrontam porque não são minimamente confundíveis.
Na verdade, no enquadramento legal o papel do freguês (ou cidadão residente na freguesia) devia ser o de agente ativo da comunidade, indo muito além do conceito comercial.
Infelizmente, um bom número dos fregueses entendem-se e comportam-se apenas como clientes de um serviço que lhe é prestado (na maior parte das situações gratuitamente), ficando-se, quase sempre, pela denuncia (importante), pela crítica (necessária) e pela queixa (legítima). O problema é que os meios e espaços que privilegiam não são os contactos diretos com os responsáveis autárquicos ou os canais por eles disponibilizados, mas antes as redes sociais onde, atrás de um teclado, tantas vezes se escondem os boatos que se sustentam de passados não documentados e de futuros especulativos e demagógicos. Quase sempre os interesses comunitários destes fregueses não conseguem passar da dimensão exígua (e quase sempre exponenciada) do eu. Não há no seu contributo qualquer investimento (pessoal, formativo e informativo), antes se exacerba o espírito competitivo, o egocentrismo e o culto da personalidade.
Por feliz oposição, o vizinho, que através da sua comunidade estabelece uma relação de cidadania com a sua autarquia em que a base (e a exigência) são naturalmente a proximidade e a frontalidade, tende sempre à cooperação sem limitar (porque não deve) a crítica, nem temer ser propositivo e muito menos sem fugir à participação. A vizinhança privilegia o frente a frente e o contraditório, prefere sempre o tempo presente (onde se constatam os problemas e devem encontrar-se as soluções), para que os interesses comunitários, com naturais repercussões individuais, se projetem no nós tendo por base as convicções, as potencialidades e as oportunidades.
Investir na vontade de ser vizinho contribui para a verdadeira perceção do sentimento de pertença e da vontade de participação comunitária, pois consubstancia o espírito associativo, o sentido de grupo e culto do nós.
Na verdade, como se vê, a verdadeira dimensão da cidadania está na capacidade (e vontade) de se ser freguês sendo vizinho.