Edição nº 1963 - 16 de setembro de 2026

Lopes Marcelo
MAU TEM, BOM TEMPO?

Os cidadãos que vivem fora das grandes cidades e têm contacto com o campo, com as paisagens rurais, as actividades agrícolas, pecuárias e florestais; certamente já se surpreenderam com a ligeireza dos meios de comunicação social e com destaque para os noticiários da televisão quando, perante a previsão de alguma chuva, é logo enfatizado: vem aí mau tempo. O mau tempo vai continuar…
Surpreende-me cada vez mais que o padrão normalizado das notícias seja condicionado pela sociedade urbana e pela lógica do consumo que molda uma mentalidade de conceitos de alcatifa e verniz circunscrito a uma sociedade elitista que esquece a realidade fora dos seus gabinetes, das suas casa e grandes superfícies de atmosfera controlada. Mas, na verdade, a realidade da economia, da produção rural que em grande parte alimenta a sociedade urbana, decorre a céu aberto e necessita de abundantes recursos naturais, hídricos e outros elementos característicos das estações do ano. Assim, na realidade o tal mau tempo anunciado é afinal bom tempo necessário.
Deixando de lado as situações de catástrofes naturais, de características especiais e muito complexas, é surpreendente e incompreensível que considerem o tempo de sol e calor sempre como bom tempo, mesmo quando representa longos períodos de seca extrema e com condições propícias aos incêndios florestais. Sim, consideram como bom tempo, desde que favoreça o seu bem estar imediato, o consumo de viagens, de estadias na praia e outros regalias e actividades ao ar livre, mesmo que o designado bom tempo contribua para a desertificação do território, comprometa a biodiversidade e afecte negativamente a produção agrícola, pecuária e florestal. Afinal, saberão tais fazedores de opinião da Comunicação social que a nossa balança comercial do sector alimentar é cada vez mais deficitária, ou seja, que temos vindo a importar cada vez uma maior parte dos produtos que comemos? Mas para quê interrogarem-se, se encontram nos mercados tudo o que precisam? De onde veem, como são produzidos e a que custo ambiental? Um repórter, na recente Feira Nacional da cebola exclamava surpreendido com tanta cebola a par da agricultura que ele opinava levianamente estar em extinção. Contudo, é a actividade agrícola o suporte do mundo rural, a base da diversidade biológica e da humanização da paisagem que, no nosso país interfere com cerca de 80% do nosso território.
Não obstante, tais interventores no espaço público, expressam ignorância ou, pelo menos desconsideração pelo mundo rural, pelos saberes e tradições culturais e produtivas. Revelam ignorância da enorme riqueza e diversidade do nosso território que, para tão engravatadas vedetas das antenas da Comunicação, e tantos protagonistas do nacional streaming não passará de chão que pisam nas suas deslocações enquadradas em belas paisagens naturais que tais citadinos usam para recreio e descanso do estress das suas tão intensas e complicadas vidas mundanas de que se lamentam tantas vezes.
São impressionantes o desconhecimento e o desenraizamento que revelam e propalam aos quatro ventos. Contudo, o mundo rural, mundo nosso, é de todos, mesmo dos que saturam o espaço urbano já que é na matriz rural que mergulham e se renovam as raízes do nosso tempo. A par do surpreendente avanço científico e tecnológico, por vezes frio e desumano, considero da maior importância redescobrir e valorizar o admirável mundo rural. Mundo das tradições, do equilíbrio na diversidade biológica e paisagística. O espaço e o tempo rurais identificam-se com a fertilidade e a criatividade permitindo às pessoas realizarem-se de forma integral. É a sabedoria popular que exprime a partilha e a comunhão do homem com a natureza, numa relação equilibrada entre o mundo vegetal e o mundo animal, onde o homem é parceiro e não predador. Não será aviso suficientes sobre a desertificação, a notícia recente de grupos de javalis que, por não terem comida no campo, já invadiram os jardins de Setúbal e circularam pelas praias por entre as pessoas? Dá que pensar: queremos sempre bom tempo?

16/09/2026
 

Em Agenda

 
05/08 a 31/10
Vasta é CastelaCentro Cultural Raiano, Idanha-a-Nova
05/08 a 31/10
Prémios Nobel na Obra de Bertino CordeiroMuseu Municipal de Penamacor
19/09 a 20/09
MicrotopiasFábrica da Criatividade, Castelo Branco
20/09
Feira Mensal de Colecionismo, Antiguidades e VelhariasAvenida Nuno Álvares, Castelo Branco
26/09
Feira Despacha BagagemPraça 25 de Abril, Castelo Branco

Gala Troféus Gazeta Atletismo 2024

Castelo Branco nos Açores

Video