Edição nº 1963 - 16 de setembro de 2026

Maria de Lurdes Gouveia Barata
O SORRISO ATRAI SORRISO

O miúdo, de três ou quatro anos, brincava junto a um banco entre canteiros na Avenida Nun’Álvares. Saltava, brincava com pequenas corridas, ria. Ela passava de saco na mão, magra, mediana de altura e idade, provavelmente tinha ido às compras, ou andava às compras, parou um pouco porque um salto do miúdo lhe tolheu o passo: Então, andas aqui a brincar? – disse-o sem um sorriso, embora não denunciasse animosidade no tom de voz. A criança olhou, ficou séria com ar desconfiado e correu para junto da mãe que conversava com uma pessoa. O incidente, que nada tinha de especial, despertou em mim lembrança de meninice, quando frequentava a escola primária.
Tínhamos às quartas-feiras, já não me recordo se todas as quartas ou uma ou duas por mês, uma aula de religião e moral, aparecendo o Cónego Anacleto para nos falar. O Cónego Anacleto tinha fama de santo pela bondade de que faziam prova certas histórias de acontecimentos que se comentavam. A sua voz suave e afectuosa, a sua forma de estar, amável e doce, despertava aceitação em nós, sobretudo respeito, que sabia conquistar para lá da representação religiosa, que significava muito na época da ditadura salazarista. Era um homem alto e magro, tinha o gesto de pôr a mão larga e espalmada sobre o coração, que, a mim, me fazia lembrar as imagens dos santinhos em papel (ainda há quem se lembre desses santinhos que se podiam comprar nas papelarias e livrarias ou receber na igreja?). O Cónego Anacleto vestia todo de negro com uma capa comprida que acentuava a figura e o remetia para os tais santinhos, que frequentemente traziam retratos de determinados santos. Isso quase me levava a ver nele as auréolas de raios de luz e despertava-me confiança e paz.
Recordo-me, numa dessas quartas-feiras, da chegada dele, de pé ao cimo da sala, de nos olhar bem nos olhos e começar a sorrir. Parecia-me que tinha olhado para todas nós (a turma era feminina…) e nós, à medida que nos sorria, começámos igualmente a sorrir-lhe. Foi então que falou: Vêem? Eu sorri e todas vós me sorriram. O sorriso atrai sorriso. Se eu sorrir para alguém, essa pessoa sorri! Experimentem!
Aquela frase ficou a bailar-me no pensamento. Sei que estive atenta ao que disse depois, mas não lembro bem. Todavia, o sorriso atrai sorriso ficou gravado.
À medida que vivemos e nos tornamos adultos, começamos a perceber que o sorriso não é apenas aquela suavidade de convite a um entendimento entre seres humanos. Mas continua relevante nesta perspectiva. Há um provérbio que o torna poderoso: o sorriso reduz as distâncias. No entanto, há outra face da moeda. Para já, vou recorrer a José Saramago: «Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos. § O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições (…) Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (porque não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso. § O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares (…). Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? § Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.» Seguindo este último sorriso, o da própria Natureza, evoco a primeira estância dum poema de Pessoa que aglutina, pela beleza da imagem, a força da descrição de um sorriso («Sorriso audível das folhas»):

Sorriso audível das folhas,
Não és mais que a brisa ali.
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
(…)

Os dois pontos de vista, um positivo, outro negativo, firmam o que nos traz o provérbio: Há sorrisos que ferem como punhais. Mas deixo o da maldade que exprime a troça, a arrogância, o desdém, a amargura, até o ódio pela ameaça que o pode acompanhar, centrando a minha atenção na vertente positiva do que revela o sorriso como definidor dum carácter e como espelho de relação com o outro, pela troca cúmplice num encontro, mesmo fugaz, com outro ser humano. Torna-se humanização num momento de vida, celebrando a vida. E o Sorriso com maiúscula de que fala Saramago tem a pureza dum perfil de carácter formado em solidariedade. As sombras do mundo e as da alma triste ou desesperada amenizam pelo sorriso que se torna subversivo contra a frieza e a indiferença. O sorriso é uma linguagem universal e não tem sotaque. O sorriso torna-se íman de reconciliação e de convívio e atrai sentimentos como os do amor e os da amizade. O poema «Amigo» de Alexandre O’Neil inicia-se assim:

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
(…)

De Eugénio de Andrade «O Sorriso» (O Outro Nome da Terra):

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Estabelecem-se elos de afecto através do sorriso e há quem pareça ter dificuldade em sorrir. Quem não conhece algum desses e até se comenta por vezes: é um trombudo! Como aquela senhora que encontra a criança, de que falei no princípio, era uma trombuda, que nem sorriu para uma criança! Mas há quem não sorria ou o faça raramente. Alguns têm o que se pode designar como mau sorriso, já referido. E aquele sorriso alvar da arrogância do narcisista? Falei em narcisista e lembrei-me logo de Trump! Já o vi sorrir com aquele sorriso… que é o íman da simpatia? Não! Lembro-me do Trio TNP! [Trump Natanyhau Putin] Por pouco não era TNT! E no efeito para lá caminha…
Ei! Olhe para mim! Vou tirar-lhe uma foto! Sorria!
É que o sorriso traz a sedução da luz.

16/09/2026
 

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