José Dias Pires
«ESTAMOS MAGROS, MAS AINDA ESTAMOS VIVOS!»
Interior.
É aqui que vivemos: nas margens esquecidas do país profundo, onde a terra coberta de pasto e estevas está em vésperas de poder ser coberta pelo silício cristalino das placas solares.
Resistiremos.
No litoral, querem-nos, há muito, transformar em “índios” de novas fronteiras: Fronteiras do esquecimento, da desvalorização e, principalmente, da falta de respeito.
Na verdade, não vestimos peles antigas, mas temos a pele curtida, a pele nativa de quem insiste em combater o abandono de um território despovoado que os nossos velhos nunca deixaram para trás até que o tempo os levou.
Persistiremos, insistiremos e ficaremos por cá, na teimosa mania de tentar construir os nossos sonhos, se preciso for, com pedras, capazes de desafiar a gravidade de todas as ausências, quando as atirarmos.
Nós, os tais “índios das novas fronteiras”, olhamos para o céu cinzento e procuramos, entre as nuvens pesadas, encontrar as raras penas da alegria que o vento teima em espalhar para longe daqui.
Temos os lábios gretados pela alergia à poeira do esquecimento e à solidão. Nos bolsos gastos carregamos seixos redondos dos rios que, quando for o momento, nos servirão de munição para caçar, por entre os galhos secos das árvores, as “aves de rapina” que sobrevoam os nossos vales.
Querem-nos reservas de caça? Aprenderemos, sob o olhar indiferente do mundo moderno, a usar toucas e coleiras feitas com as penas das ditas aves que, seja qual for o esforço, havemos de caçar sem inteligência artificial.
Querem-nos empreendedores da inovação? Tornar-nos-emos adornos de nós mesmos, contra a submissão forçada que a necessidade impõe. Aos visitantes, que em tempo de caça a outras aves, cada vez mais raras (as dos votos a favor), exibiremos máscaras com sorrisos desdentados e forçados, e fingiremos, num teatro cansado, mas de forma competente, que conhecemos a mítica dança da chuva.
Querem-nos parte da economia circular? Sob o peso dos bocejos que denunciam a fome de ideias e valores que sobra no litoral, acabadas as cerejas e as maçãs, venderemos, à beira do asfalto, e a quem por aqui passar a mando dos gabinetes de todos os poderes, brindes certificados com o selo irónico da Região da Muita Parra e Pouca Uva, designação que testemunha as promessas políticas que nunca deram fruto.
Aqui, nas “reservas” onde a terra fértil corre o risco de se transformar em paisagem fotovoltaica, chegam-nos, pomposas, as palavras de sempre, mascaradas de novidade. Recicladas dos discursos velhos, soam a trovas modernas, desenhadas para enganar os “chefes nativos destas reservas” e manter o seu povo manso.
Contudo, “os índios das novas fronteiras” nunca devíamos ter aprendido a fingir, o que nos levou a simular que agradecemos a míseras ofertas, como se fossem uma bênção divina, quando são apenas um cinismo que ecoa, com crueldade, nos vales vazios. Entre a humilhação do turismo forçado e a beleza das penas caçadas na brenha selvagem, devia haver um hino a desafiar o esquecimento institucional: «Estamos magros, mas ainda estamos vivos!».
Insistiremos!