Edição nº 1965 - 30 de setembro de 2026

Patrícia Bernardo
QUANDO COMEÇAM AS AULAS, COMEÇA TAMBÉM A PREVENÇÃO

Nenhuma criança deve ter medo de ir à escola. Nenhum adolescente deve sentir que está sozinho perante a violência. E nenhuma humilhação deve ser aceite como “apenas uma brincadeira”.
Com o início de mais um ano letivo, milhares de crianças e adolescentes regressam à escola levando consigo expectativas, entusiasmo, receios e desafios. Para alguns, este regresso significa reencontros e novas amizades. Para outros, pode significar ansiedade, medo de não serem aceites ou o receio de voltar a enfrentar situações de agressão, exclusão ou humilhação.
É precisamente por isso que o início das aulas é também um momento privilegiado para falar de prevenção da violência.
A violência contra crianças e adolescentes pode assumir diferentes formas. Pode ser física, psicológica ou sexual, acontecer no contexto familiar, escolar, comunitário ou através do meio digital. Nem sempre deixa marcas visíveis. Uma criança pode não apresentar qualquer sinal físico e estar, ainda assim, a viver uma situação de profundo sofrimento.
O bullying é uma das realidades que exige particular atenção no contexto escolar. Não estamos perante uma simples discussão entre colegas. Falamos de comportamentos de agressão, intimidação, humilhação ou exclusão que se repetem ou que ocorrem numa relação de desequilíbrio de poder. Pode acontecer no recreio, na sala de aula, nos transportes, nas atividades desportivas ou nos espaços digitais. E é precisamente através das tecnologias que a violência pode ganhar uma dimensão ainda maior. Uma fotografia divulgada sem autorização, uma mensagem ofensiva, comentários humilhantes, ameaças ou a criação de grupos destinados a excluir alguém podem transformar o telemóvel e as redes sociais num prolongamento da violência escolar. Para a criança ou adolescente que é alvo, pode parecer que não existe um lugar onde consiga escapar.
Por isso, o silêncio não pode ser a resposta.
Nem sempre uma criança consegue dizer claramente aquilo que está a acontecer. Pode ter vergonha, medo de represálias, receio de não ser acreditada ou acreditar que falar vai piorar a situação. Por vezes, o sofrimento manifesta-se através de alterações do comportamento: isolamento, irritabilidade, tristeza, ansiedade, dificuldades de concentração, alterações do sono, queixas físicas ou resistência em ir à escola.
Estar atento a estes sinais é uma responsabilidade dos adultos.
Mas prevenir começa ainda antes de surgirem os sinais. Começa quando ensinamos às crianças que ninguém tem o direito de as humilhar, ameaçar ou magoar. Começa quando explicamos que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. E começa quando criamos relações onde uma criança sabe que pode falar e será ouvida.
Também é importante não banalizar determinados comportamentos. “É só uma brincadeira” pode parecer uma resposta simples, mas pode esconder sofrimento. Uma brincadeira deixa de ser brincadeira quando alguém se sente humilhado, ameaçado, excluído ou magoado.
A escola tem um papel fundamental nesta prevenção. O início do ano letivo é uma oportunidade para estabelecer regras claras de convivência, promover o respeito pela diferença, trabalhar a empatia e explicar aos alunos a quem podem recorrer quando alguma coisa não está bem.
Mas a prevenção da violência não é responsabilidade exclusiva da escola. É uma responsabilidade de todos.
Famílias, professores, assistentes operacionais, profissionais de saúde, técnicos e comunidade devem estar atentos e trabalhar em conjunto. Também os próprios alunos podem contribuir: não participar na humilhação, não partilhar conteúdos ofensivos, apoiar quem está isolado e procurar a ajuda de um adulto são comportamentos que podem fazer a diferença.
É, igualmente, importante intervir perante os comportamentos de quem agride. Compreender o que está na origem de um comportamento agressivo não significa desculpá-lo. Significa procurar interromper ciclos de violência e ensinar formas mais adequadas de lidar com a frustração, a raiva, os conflitos e as relações com os outros.
Prevenir é, portanto, muito mais do que reagir quando a violência já aconteceu. É construir diariamente ambientes onde crianças e adolescentes se sintam seguros, respeitados e valorizados.
O início das aulas oferece-nos essa oportunidade.
Uma oportunidade para perguntar, ouvir e estar atento. Para ensinar que ser diferente não é motivo para excluir. Que ter poder não dá o direito de humilhar. E que pedir ajuda é um ato de coragem.
(Psicóloga Clínica e da Saúde e Psicóloga Judicial)

30/09/2026
 

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