Lopes Marcelo
Museu Municipal?
O Museu Francisco Tavares Proença Júnior foi recentemente notícia pela celebração de um contrato de gestão entre o Governo e a Câmara Municipal, passando a tutela do Museu para a Autarquia.
Esta alteração de gestão foi recebida com a aprovação geral e, até, entusiasmo da parte dos responsáveis autárquicos. De facto, em termos de gestão de proximidade e da vibração cultural da cidadania local, as vantagens podem ser muito significativas e concretizarem-se de forma mais eficaz. Contudo, do ponto de vista cultural e histórico, é da maior importância estratégica que não se caia numa gestão de vistas curtas ou caseira, quer em termos territoriais, quer em termos de coerência com a história do Museu e o património da nossa região. Realmente, o Museu representa a região, sendo a centenária expressão cultural da vida de sucessivas gerações que humanizaram o território da Beira Baixa.
Em termos da história do Museu, quando Francisco Tavares Proença Júnior, em 1908, propõe à Câmara Municipal a criação de um museu na cidade, toma por base a sua colecção arqueológica de cerca de 3000 objectos recolhidos em todo o distrito de Castelo Branco. De facto, tendo iniciado em 1902 as explorações arqueológicas, logo em 1903 começa a publicar estudos e artigos, tornando-se sócio efectivo da Real Associação de Arquitectos e Arqueólogos e da Société Préhistorique de France. Era já um arqueólogo internacionalmente reconhecido e muito activo a nível nacional na divulgação da relevância cultural do nosso território. Eco nacional da importancia que o Museu já adquirira, é a referência que o Archeologo Português de 1914 lhe fazia, salientando que “era um dos mais notáveis do nosso país, no que toca a epigrafia romana e a adereços pré-romanos de prata (braceletes, fíbulas) ”. No pouco tempo que foi director do Museu, Francisco Tavares Proença Júnior consolidou o seu prestígio já então amplamente reconhecido até por uma condecoração do governo Francês. Foi uma grande perda para Castelo Branco a sua saída do país em 1912, já marcado pela doença (tuberculose) de que viria a morrer em 1916 (24 de Setembro). A Câmara Municipal, logo a 12 de Outubro desse mesmo ano, aprovou a nova designação do museu em homenagem da memória do seu dedicado fundador. Foram atribulados os primeiros anos do Museu, mas consolidou-se e resistiu ligado ao prestígio do seu fundador e ao apoio da sociedade civil através da criação da Sociedade dos Amigos do Museu francisco Tavares Proença júnior.
A dimensão regional como mosaico cultural de vasto território abrange as várias épocas da ocupação humana, desde a pré-história com as estruturas de habitat encontradas em Vila Velha de Ródão e a Arte rupestre do vale do Tejo. Contudo, destaca-se a época romana que está representada com inúmeros e valiosíssimos achados, salientando-se a título de exemplo: a pequena estatueta de azinho proveniente de Idanha-a-Velha; três frascos de vidro encontrados em Sobreira Formosa e a tesoura em ferro de tosquiar da zona da Covilhã. Na investigação por toda a Beira Baixa destacou-se o Professor D. Fernando de Almeida que foi director do Museu na década de sessenta do século passado, reforçando-se o prestígio nacional do Museu ao ser reorganizado e instalado no Paço Episcopal.
Em função da realidade histórica social e cultural e da sua evolução centenária, não deverá o Museu Francisco Tavares Proença Júnior ser considerado, tratado e gerido como um museu muncipal. Dada a relevância cultural desta questão, voltarei ao assunto.