Edição nº 1729 - 16 de fevereiro de 2022

Maria de Lurdes Gouveia Barata
SAUDADES DA CHUVA

Que dias límpidos e azuis, recorte nítido de horizontes, sol de Primavera, embora cortado de vento frio, quando faz vento… Dias seguidos assim neste Inverno. Os sentidos consolam-se com beleza e um certo bem estar, porque a luz traz alegria. Porém, uma inquietude vem dominando os nossos sentimentos, não por fazer jus ao «nunca se estar satisfeito»,mas antes pela seca que faz sofrer a Natureza e que vai tomando conta do país e de outras partes do mundo. Mais de metade de Portugal está em seca severa ou extrema. E então surde uma saudade de chuva, que é habitual no Outono e no Inverno sobretudo. Penso que já disse uma vez que sou mulher de Verão, sempre me senti torturada pelo frio. Todavia, sinto uma apetência da chuva, mormente dos dias de céu de carapaça cinzenta, toda por igual, a chuva caindo cadenciada, contínua, sem violência, motivando para uma intimidade de casa e de recolhimento, levando a uma acalmia que escuta a água que vem do céu a roçar nas vidraças numa espécie de lengalenga que embala. E ponho-me agora a lembrar poemas como «Tão calma é a chuva que se solta no ar / (Nem parece de nuvens) que parece / Que não é chuva, mas um sussurrar / Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. / Chove. Nada apetece...» (Fernando Pessoa, Cancioneiro). Francisco Bugalho («Paisagem») enleia-se também nesse aconchego íntimo: «Chuva, caindo tão mansa, / Em branda serenidade. / Hoje minh’ alma descansa. / - Que perfeita intimidade!...». Há uma espécie de chamamento a recônditos do ser, contribuindo ainda Florbela Espanca (soneto «Mistério», 1ª quadra):
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.
Mas falar do que sentem os poetas ou falar do que eu sinto em dias de chuva sossegados ou de regalar-me de sol nestes dias azuis, não tem interesse especial, nem fala dum bem comum que é a chuva e penso que a todos traz saudade, por uma razão ou por outra. Ouve-se agora frequentemente «se isto continuar assim, sem pinga de chuva, vai ser bonito, vai…». Entramos deste modo numa urgência por uma necessidade: a da chuva. Diz o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant que «a chuva é universalmente considerada o símbolo das influências celestes recebidas pela terra. (…) Aquilo que desce do céu para a terra é também a fertilidade do espírito, a luz, as influências espirituais». A chuva fecunda o solo, que se torna fértil através dela. Há um simbolismo sexual da chuva considerada esperma numa reprodução vegetal de toda a Natureza, como semente e sangue da vida, daí podendo inferir-se «a origem dos sacrifícios humanos, ritos de fecundação, característicos das civilizações agrárias» (ob. cit.)». Aliás, várias civilizações consideravam a chuva como o sémen dos deuses.
A falta da chuva pode tornar-se uma catástrofe. As notícias não mentem com a preocupação de praticamente todas as barragens com níveis abaixo da média, a preocupação com falta de pasto para os animais. Ouvi uma notícia informando que o município de Viana do Castelo vai proibir regar espaços verdes para poupar água e daí a possível condenação à morte dessa vegetação que hoje tanto se exige nas cidades. Contudo, temos um reverso da medalha: chuvas devastadoras destroem espaços agrícolas, destroem casas, matam animais e humanos. Imagens como as de Moçambique e Madagáscar, a título de exemplo, tornam-se chocantes.
Chegamos, assim, a um ponto fulcral: o das alterações climáticas, sendo o ser humano o principal responsável. É quase inacreditável que despreze o planeta onde vive e que não faça dele uma herança limpa para os filhos. Todos somos responsáveis, é verdade, mas nem todos têm o poder de arrepiar caminho. Caiu-me sob o olhar uma notícia sobre o antropoceno e de podermos estar a entrar numa nova era de extinção em massa. Tinha uma reminiscência da primeira palavra já ouvida, a curiosidade levou-me a procurar informação: «antropoceno — do grego anthropos, que significa humano, e kainos, que significa novo — foi popularizado em 2000 pelo químico holandês Paul Crutzen, vencedor do Prémio Nobel de química em 1995, para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto do homem na Terra». O impacto tem a ver com as alterações que os humanos estão a provocar no clima e na biodiversidade do planeta, por exemplo a aniquilação de milhares de espécies: vertebrados terrestres, insectos (importantes na polinização e equilíbrio de ecossistemas), o desflorestamento (e ponhamos em relevo a destruição da Amazónia), que destrói habitats e desequilibra ecossistemas, o aquecimento dos oceanos. Saber todas as consequências é aterrador e uso propositadamente a palavra. Há também negacionistas entre os cientistas, que, apesar das evidências das alterações, negam que se concretize uma catástrofe de aniquilamento. Há ainda os conformados, que encolhem os ombros como os indiferentes. Há os que se revoltam e são impotentes, falta-lhes o poder da decisão.
Estar ao preço da chuva é algo barato e fácil de adquirir, sendo gratuito, porque a chuva foi sempre habitual, não se paga por ela, vem como bênção adquirida. Será que continua a ser assim? Será que não se vai pagar bem caro pela falta de chuva?
A saudade traz a tristeza de uma ausência e o afecto que se entretece com a perda de algo. É evocadora de gratas recordações e esperemos que a falta de chuva não traga aquele vazio por algo que se tornou distante e ausente. Pode ser que os meses próximos nos descansem do irónico vai ser bonito, vai…Lembro um poema de Irene Lisboa («Meados de Maio») que nos fala dum Maio chuvoso, de que faço um excerto:
(…)
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!
(…)
Tenho saudades da chuva.

16/02/2022
 

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