Edição nº 1832 - 21 de fevereiro de 2024

Maria de Lurdes Gouveia Barata
O RIDÍCULO VEM AO DE CIMA

A Fevereiro associamos sempre o Carnaval, as brincadeiras, as festas, os desfiles que se tornam espectáculo depois de vários meses de preparação, as máscaras, o riso. Torna-se também época de críticas, levando ao grotesco eventos políticos ou sociais, numa espécie de vingançazinha de suporte do que se vai engolindo em seco por ser lesivo de interesses ou por causar revolta perante injustiças. Por vezes diz-se que, andando mascarado todo o ano, o Carnaval desmascara através de outras máscaras escolhidas. Atrás de caricaturas e bizarrias vem o riso, que nasce do ridículo. Enfatizemos esta palavra que, conforme os contextos, pode ter diferentes significados. Ridículo é o que é digno de riso, provocando esse riso – é risível implicando o escárnio, a zombaria, a gargalhada de troça por tornar-se cómico. Também pode querer dizer de uma insignificância, por exemplo vender algo por um preço ridículo, não deixando, porém, de chegar ao risível – um preço que dá vontade de rir.
Expor ao ridículo pode implicar pessoas ou algo que desperte a troça, que faz rir pela estranheza ou despropósito. As brincadeiras carnavalescas primam várias vezes por meter a ridículo situações ou pessoas, sobretudo políticos cuja actuação se torne non grata. Poderemos dizer que a ideia de ridículo acarreta o cruzamento entre o humor e a crítica social, desempenhando um papel na relação humana. Não é por acaso que a influência de Gil Vicente vem até nós com a marca de ridendo castigat mores (rindo castigam-se os costumes), pois o riso e o escárnio podem ganhar força de correcção de costumes.
Há comportamentos que se tornam ridículos e vou dar um exemplo ainda recente. As manifestações das forças de segurança (PSP e GNR) a que todo o país assiste (e tomo a posição de dizer que são justas) levaram a comportamentos de baixa por doença que impediram alguns eventos ligados ao futebol. A baixa por doença de muitos pode considerar-se quase colectiva e penso que toda a gente percebeu que estava integrada como forma de luta. Daí despoletou a acusação do ministro da Administração Interna de «grave insubordinação. Houve então a atitude dum representante do sindicato da PSP, contra esta acusação, dizendo que o que se esperava era que o 1º Ministro tivesse aparecido a desejar as melhoras dos doentes. É neste exagero de vitimização que surge o ridículo. Assisti e ri. A incoerência do que se exigia tornou risível a situação.
O ridículo cai sobre ignorantes (ou são mentirosos?) como quando houve aquela famosa declaração de Jair Bolsonaro na altura da pandemia Covid: «Este vírus não passa de uma gripezinha leve. Devem continuar a vossa vida normal». Também ridícula foi Christine Lagarde: «Os idosos vivem demasiado tempo e são um risco para a economia. É preciso tomar medidas urgentes».
Trump é um manancial de ridículo. Disse ter um «instinto natural para a ciência», por isso não acredita nas alterações climáticas. E disse ainda: «O conceito de aquecimento global foi criado pelos, e para, os chineses de forma a retirar competitividade à indústria norte-americana». E seria um nunca acabar de ridículo nas mais diversas áreas sobre as quais fala Trump. Alguém disse que «o primeiro passo da ignorância é presumir saber», por isso muitas falas de ignorância entram no ridículo.
Também é referenciado o ridículo no amor, nas expressões e gestos de exagero. Bastava, para evidenciar a ideia, aludir ao famoso poema de Pessoa «Todas as cartas de amor são ridículas», de que transcrevo as quatro primeiras estrofes:

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
(…)

Nesta sequência, deixo palavras de Che Guevara: «Deixe-me dizer-lhe, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor». E convenhamos que é verdade, não é susceptível de risada.
As pessoas podem ter manifestações ridículas, mas a crítica pode ridicularizar com má intenção e há olhos de crítica mal intencionados que podem prejudicar o sentimento de auto-estima de alguém mais fragilizado. Criticar, por exemplo, um modo de vestir tem sempre uma componente subjectiva e aquele que gosta de ridicularizar pode sair ridicularizado.
Falar do que é ridículo ou risível é tema interminável e não tem época própria, sendo, no entanto, o Carnaval propício a trazê-lo ao de cima.

21/02/2024
 

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