João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
POR ESTES DIAS foram três as figuras da política e da cultura que desapareceram. Pouco a pouco, a lei da vida também assim o dita, vão desaparecendo estas personagens de forte estatura cívica e cultural, participantes ativos na sociedade portuguesa, que eram referência de uma geração que lutou e viu nascer a democracia. Francisco Pinto Balsemão, que acreditou, com Sá Carneiro, Miller Guerra, Mota Amaral, Magalhães Mota e outros, ser possível mudar por dentro o regime de Salazar e Caetano, no sentido da democratização, das liberdades e garantias. Fez parte do grupo de deputados, a chamada Ala Liberal, que tinha aceitado integrar as listas da União Nacional, em 1969. Militante número um do PSD, primeiro ministro após o acidente de Camarate, foi na comunicação social que deixou marcas do seu pensamento liberal, com a criação do Expresso em 1973, uma pedrada no charco da imprensa e da vida política de então e que conseguiu manter até hoje, atravessando várias crises, comuns à maioria dos jornais. E depois, foi a aposta na SIC que criou em 1992, quando Cavaco Silva abriu a televisão à iniciativa privada. São projetos que muitos não isentam de crítica pela sua orientação política, mas são críticas e opções editoriais naturais num país livre, plural e democrático.
Laborinho Lúcio teve uma passagem discreta pela política, como ministro da Justiça, num dos governos de Cavaco Silva, mas muito presente, na intervenção social. Foi um dos fundadores da Associação do Apoio à Vítima (APAV) que no momento da sua morte destaca a figura de humanista e de cidadão que sempre defendeu uma justiça mais próxima das pessoas e atenta aos mais vulneráveis. Por isso não foi surpresa a sua integração na Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.
Finalmente, a terceira personalidade que nos deixou foi António Borges Coelho. Um dos historiadores portugueses mais prestigiados. Foi militante do PCP, lutou na clandestinidade e foi preso político. A sua formação marxista trouxe novas perspetivas a temas cruciais da história de Portugal, em livros como Raízes da Expansão Portuguesa que é considerada uma das suas obras mais notáveis e um texto fundamental para a compreensão da historiografia portuguesa do século XX.
Foram três personalidades que, cada um à sua maneira, deixaram marcas na sociedade portuguesa, tornando-a mais moderna, justa e de pensamento livre. E foi bom e justo que, por esta vez, tivesse havido uma quase unanimidade de elogios sobre o caráter e a obra que nos legaram.