Patrícia Bernardo
“BULLYING, CIBERBULLYING E MOBBING: A VIOLÊNCIA QUE NÃO CONHECE FRONTEIRAS”
Por muito tempo, o bullying foi visto como uma “brincadeira de mau gosto” entre colegas. Contudo, o que antes se limitava aos corredores da escola, hoje ganhou novas dimensões, tornando-se um fenómeno global que atravessa idades, contextos e, sobretudo, fronteiras digitais. O bullying, o ciberbullying e o mobbing são expressões distintas de um mesmo problema: a violência psicológica e moral que destrói a auto-estima, vínculos e deixa marcas profundas, muitas vezes invisíveis.
O bullying é um tipo de violência silenciosa que começa cedo e caracteriza-se por agressões repetitivas, físicas, verbais ou psicológicas, dirigidas a uma pessoa considerada de alguma forma “vulnerável”. Pode ser um apelido humilhante, uma exclusão constante ou até empurrões e ameaças. O que o diferencia de um conflito comum é a repetição e o desequilíbrio de poder: o agressor impõe-se sobre a vítima, que raramente consegue se defender. E, raramente, recebe ajuda de observadores passivos!!!
Estudos da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de um em cada três estudantes no mundo já foi vítima de bullying. Em Portugal, um inquérito alargado com 7 139 jovens (idades 12-18) e cerca de 61 escolas indicou que 68% dos estudantes afirmaram ter sido vítimas de “algum comportamento de agressão” no ambiente escolar (desde insultos, exclusão social até agressão…) entre 2018-2022. Segundo a APAV, entre janeiro e setembro de 2025 foram apoiadas 77 vítimas de bullying e ciberbullying (55 bullying, 17 ciberbullying, 5 de ambos) em Portugal.
As consequências são sérias: queda no rendimento, isolamento social, depressão e, em casos extremos, suicídio.
Com o avanço das redes sociais, o bullying encontrou um novo território e, paradoxalmente, uma nova forma de permanência. O ciberbullying que ocorre quando insultos, humilhações ou boatos são propagados pela internet. Um vídeo, uma foto ou uma mensagem ofensiva podem se espalhar em segundos, alcançando milhares de pessoas. E, diferente da agressão física, a violência digital não tem limites de tempo nem espaço: acompanha a vítima 24 horas por dia, mesmo dentro de casa.
O anonimato e a sensação de impunidade que a internet oferece potencializam o comportamento agressivo. Um comentário maldoso num grupo de WhatsApp ou uma postagem gozando com alguém pode parecer insignificante para quem o faz, mas tem o poder de destruir reputações e abalar, profundamente, a saúde mental de quem sofre.
As plataformas digitais, embora possuam mecanismos de denúncia, ainda enfrentam dificuldades em conter a disseminação do ódio online. Vários especialistas alertam que o combate ao ciberbullying exige educação digital, ou seja, ensinar crianças e adolescentes a usar a internet com empatia e responsabilidade.
Se nas escolas o bullying é mais visível, nas empresas assume um formato mais subtil e, igualmente, devastador: o mobbing, termo usado para descrever o assédio moral no ambiente de trabalho. Pode ocorrer por meio de humilhações públicas, isolamento, sobrecarga propositada de tarefas ou difamação. Em muitos casos, a vítima é lentamente excluída da equipa, levando ao adoecer físico e psicológico.
Um inquérito mais recente, conduzido pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LabPATS), com 3.822 profissionais em 2024, indicou que 27,7% dos trabalhadores afirmaram ter sido alvo de ameaças ou de outras formas de abuso físico ou psicológico no trabalho. O mobbing é frequentemente disfarçado por “cobrança de resultados” ou “brincadeiras entre colegas”, o que dificulta a identificação e a denúncia. No entanto, a repetição e a intenção de desestabilizar o trabalhador configuram um padrão claro de violência.
Combater o bullying em todas as suas formas exige mais do que leis, requer mudança de cultura. É preciso incentivar o diálogo, a empatia e a solidariedade desde a infância. Pais e educadores têm papel fundamental: ouvir, observar e intervir são atitudes que podem salvar vidas. No ambiente virtual, cada um de nós tem responsabilidade sobre o que compartilha e comenta. Não basta “não participar”; é necessário posicionar-se contra o discurso de ódio.
No mundo do trabalho, as empresas precisam adotar políticas claras de combate ao assédio, criar canais de denúncia seguros e promover uma cultura de respeito mútuo. Afinal, o mobbing não afeta apenas a vítima, mas também o clima organizacional e a produtividade das equipas, e consequentemente, a própria organização.
O bullying, o ciberbullying e o mobbing são faces de uma mesma realidade: a dificuldade humana de lidar com a diferença. Seja na escola, na internet ou no trabalho, o que está em jogo é a capacidade de reconhecer o outro como alguém digno de respeito.
O primeiro passo para mudar isso é falar sobre o problema e agir. Porque, no fim das contas, o silêncio também é uma forma de violência.
(Psicóloga Clínica e da Saúde)