Maria de Lurdes Gouveia Barata
NATAL - FASCÍNIO E FRAGILIDADE
Eis outro Natal, quase nem demos por esta chegada, porque nos distraímos com o tempo destravado, que nos traz o sopro de aragem com programação de ser bom e solidário, pelo menos nas palavras decoradas, um tanto puídas, que se projectam com o hábito de dizer e falar de boas intenções, distraidamente, sem atitude que leve à acção – o povo sábio dita o conhecimento: de boas intenções está o inferno cheio. O Natal traz sussurros do passado, sobretudo da infância, enleando-se com o presente, estabelecendo liames com um futuro que se imagina, sendo tradição e mudança. Tem fascínio, independentemente de crenças religiosas, exprime-se em vivências de encontros, de abraços de família e amigos com risos partilhados à volta da mesa da Consoada e ausências que se sentem nos lugares dos que partiram, vazios dessas presenças, embora sejam vazios ocupados pelos que cresceram por continuidade da vida. Esses ausentes continuam a marcar presença nos corações que para sempre os guardam. Memórias tornam a ser participantes da realidade pelo que ouvimos em músicas de Natal, em aromas de filhoses e rabanadas, em cores de bolo-rei que se torna coroa cravejada de pedras preciosas de frutas cristalizadas (e põe-se a saúde sem prioridades, porque fritos e doces são tentação), em luzes que piscam como se o céu tivesse visitado a terra. Há anjos gigantes iluminados e as árvores vestem-se de luzes para uma festa de cerimónia com muitos convidados. A pequenada agita-se de alegria – haverá sempre a sedução das crianças e a sedução dos natais quando se era criança. Seja o Pai Natal a descer pela árvore de luzes e cor, seja o Menino Jesus a descer pela chaminé, tudo se transforma num maravilhamento a que não se resiste. Eis um excerto dos primeiros versos do poema «Ode aos Natais Esquecidos» de José Jorge Letria:
Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta
que dava acesso aos mistérios da noite,
daquela noite em particular, por ser a mais terna
de todas as noites que a minha memória
era capaz de guardar, com letras e sons,
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis.
(…)
O título do poema parece carrear o que está apagado, esquecido, mas não é essa impressão que deixa no excerto, compreende-se melhor no desenvolvimento do poema, que é longo. Diz de a mais terna das noites que a minha memória sabe guardar, especificando uma causa: guarda-a com letras e sons, / no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis. Imperecível marca um tempo para sempre. A referência a natais esquecidos (no poema) conduz a momentos de desilusão e quase de não-natal para o sujeito poético.
Mas nos versos transcritos, entramos no reino da magia, a doutrina dos magos que enfeitiça e persuade. É bola de cristal para a fantasia e para o sonho, que tem a ver com a imaginação e a criatividade. Sempre o que é inexplicável ou misterioso foi designado como mágico. Para expressar uma realidade temos sempre a poesia, porque envolta no seu próprio mistério. E o Natal… é o Natal. E tem poesia. A poesia que desagua em poemas. Daí que me encaminhe para os de Natal.
O apelo a uma época fraterna estatui-se num pequeno poema de Miguel Torga, «Natal»:
Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce…
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.
Nesta mesma linha de mensagem, transcrevo um poema de António Salvado, «Saudações de Natal»:
À força de s’ erguer uma esperança
que nos conduza a fé bem mais além,
sonhamos que nasceu certa Criança
Divina lá p’rós lados de Belém.
A Criança renasce em cada ano
trazendo fim às nossas incertezas,
guiada por serena e alta estrela
cuja luz nos apaga desenganos.
Das ilusões alvoram amizades
de solidárias mãos que mais se apertam…
Sua missão de sempre? foi só esta:
dizer-nos que o amor a nosso lado
aguarda apenas um sorriso, um gesto.
Todavia, não poderemos esquecer ou ficar indiferentes a um outro lado do Natal, que alguns nem podem comemorar: os que, injustamente, vivem num mundo de desigualdade, com fome, sem habitação digna, sem qualquer abrigo mesmo, despojados de tudo, explorados, sem defesa, expulsos das suas terras por guerras injustas que os grandes senhores do poder e da ganância impõem. A injustiça que provoca revolta. Impotente. A mãe que é acusada do rapto do próprio filho no hospital, porque lhe fora comunicado que ia para uma família de acolhimento porque ela não tinha condições de habitabilidade para o criar! As notícias, em Portugal, lugar da ocorrência, só falam do inquérito aberto no hospital por causa da falta de segurança que levou ao roubo da menina recém-nascida. Nunca informam sobre a mãe e a sua perspectiva. Dois dias depois um familiar entregou a criança, bem alimentada e de boa saúde, segundo os médicos do hospital. Está agora numa instituição de acolhimento. Onde está o Estado democrático do equilíbrio social? Onde está a protecção à família, valor tão propalado? Isto no mês mágico do Nascimento do Menino. Se Jesus não tivesse nascido há tantos anos e nascesse agora neste país, o que lhe aconteceria? Livrou-se de boa!
Há ainda a parte mais frívola da vivência do Natal, que um poema de David Mourão-Ferreira nos concede em «Natal up-to-date» de que faço alguns excertos:
«Em vez da consoada há um baile de máscaras / Na filial do Banco erigiu-se um Presépio / Todos estes pastores são jovens tecnocratas / que usarão dominó já na próxima década / Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago / Chega o rei do barulho e conserva- -se mudo / enquanto se não sabe ao certo o resultado / dos que vêm sondar a reacção do público (…) Eis que surge no céu a estrela prometida / Mas é para apontar mais um supermercado / (…) Assim a noite passa E passa tão depressa / que a meia-noite em vós nem se demora um pouco / Só Jesus no entanto é que não comparece / Só Jesus afinal não quer nada convosco».
É Natal. O mundo continua a girar com a complexidade das mudanças climáticas, das guerras sangrentas, que todos conhecemos, também das conquistas científicas com incentivo da esperança de curas, de avanços, que podem melhorar a vida dos seres humanos.
VOTO DE NATAL
Acenda-se de novo o Presépio do Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.
(…) David Mourão-Ferreira
Da luz do Natal pode também nascer mais esperança!