Edição nº 1933 - 11 de fevereiro de 2026

José Dias Pires
ENTRE AS PALAVRAS SIMPLES E O SILÊNCIO NECESSÁRIO

Será que se começou a fechar o ciclo do populismo saudosista?
Entre as palavras simples e o silêncio necessário, balança agora a nossa indecisão. Torna-se imperioso que não nos resumamos às palavras simples e aos textos banais porque devemos dar-lhes vida, envolvermo-nos, enrolarmo-nos, enredar-nos, amar, odiar, pedir, oferecer, angustiar e ser: regressar à Cidade.
Aproveitemos esta viagem de regresso para nos prepararmos.
Reler, a pensar, o que vivemos sem parcialidade, o que nos fez sentir bem e sorrir.
Cada vez mais importa destruir a ditadura do tempo para que haja mais poesia que violência, onde a metáfora vença a metralha.
Se, nestes tempos que nos foi dado viver, aconteceu alguma revolução, creio que terá sido aquela cujo objetivo primacial era preservar o homem criança. A nossa tarefa foi, sem o sabermos à partida, descobrir o que há de suportável nas ideias e nas palavras para poder corrigir o que há de repreensível nos gestos, sem estragar nenhuma das obras primas com as quais nos deparámos: memórias, espaços e sensações.
Devíamos ter regressado à Cidade a temer regressar à cegueira que a todos nos tira a clarividência e a segurança.
Devíamos ter regressado à Cidade a doer-nos pensar que nos afastávamos do espelho e nos colocávamos em frente de uma parede nua.
Devíamos ter regressado à Cidade para que, perante a aproximação de algum perigo, tentássemos ser mais intrépidos sem duvidar caminhar em passo mais firme sobre tábuas estreitas de um qualquer passadiço desafiador de fundos precipícios.
Devíamos ter regressado à Cidade para que a indispensável conspiração contra a ditadura do tempo nos ajudasse a consolidar a ideia de que é sobretudo no silêncio da luz que a música é mais expressiva e deliciosa.
Devíamos ter regressado à Cidade para refinar o ouvido e o olfato, caminhar pelas praças, ruas e becos com a brisa a raspar nas esquinas, o ar a agitar as folhas, as sombras e as neblinas entre o sereno e o agitado a ajudarem-nos à leitura absoluta dos pentagramas da dúvida, do medo, da certeza e da coragem.
Devíamos ter regressado à Cidade para voltar a medir, quase sem falhas, o espaço circunscrito pelo rumor dos nossos pés e pelo reflexo da nossa voz: nós, apenas nós e a topografia das nossas memórias, as curvas de níveis projetadas no interior de nós a ponto de prevenir todos os perigos em cada um dos nossos gestos.
Temo que o tiquetaque da ponteira da bengala da nossa cegueira nas pedras das calçadas acentue a nostalgia da distância a que, lá longe, ficará a nossa coragem de mudar não olhada em cada detalhe, em cada um dos carateres dos seus múltiplos braços, em cada pausa de cada palavra caída no coração do papel, letra a letra, nota a nota.
Alguns, como eu, para se desculparem, escrevem.
E regressamos à Cidade convictos de que a escrita é a busca incessante do silêncio absoluto que não existe, mesmo quando se apresenta, tentador, entre uma nota e outra e um pensamento e o seu eco.
E regressamos à Cidade convictos de que o silêncio é o fingimento do vazio, do branco total que também não existe.
E regressamos à Cidade convictos de que o silêncio nos alimenta a imaginação e nos faz cair em abismos preocupados, porque tem o poder de enfeitiçar a luz, de acomodar as nossas emoções numa quietude tentadora mas perigosa.
Será que está apenas no intervalo de duas notas: de si a dó, de sol a sol, num sopro criativo que nos motiva a ser transformadores e transparentes?
Contudo, sem ter fechado o ciclo do populismo saudosista, entre as palavras simples e o silêncio, caímos sempre na tentação de partir para o litoral mais pobres, tal é riqueza do que deixamos por aqui.

11/02/2026
 

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