Palestra em São Vicente da Beira recorda toque dos sinos
O grupo Os Amigos dos Enxidos, a Cooperativa e a Associação Raia Gerações, com o apoio da Junta de Freguesia de São Vicente da Beira, organizaram, dia 27 de setembro, a palestra Toque dos Sinos, que teve como oradores Pedro Inácio e Tom Hamilton.
Antes do início da palestra, Pedro Inácio tocou manualmente os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, realizando três sessões designadas por Toque da Festa, Toque do Batizado e Toque do Pedro Inácio.
Refira-se que Pedro Inácio iniciou a sua atividade de tocador de sinos com apenas oito anos, tendo como mestre o Ti Zé Água, que lhe transmitiu esta arte ancestral e manual com mais de 300 anos de história.
Ao longo do seu percurso, a atividade do Toque dos Sinos promovida pela Associação GEGA chegou a ser transmitida pela RTP, em 2014, e em 2022 e 2023 Pedro Inácio participou no evento dedicado a esta tradição em Castelo Branco, juntamente com Tom Hamilton.
Pedro Inácio destacou três sinos específicos da torre, nomeadamente o Sino Um, datado de 1619 e que terá vindo do Convento de Mafra; o Sino Dois, de 1755 e com provável origem na atual Itália; e o Sino Três, fundido em 1857 por Francisco de Oliveira. Explicou ainda os diferentes significados dos toques tradicionais, como o da Ave Maria, tocado de manhã para iniciar o trabalho no campo, ao meio-dia para o almoço e ao final da tarde para o descanso. Mencionou também o toque da Missa, que chama os fiéis para a Eucaristia, o do Batizado, que anuncia essa celebração, o da Festa, associado à Procissão de Domingo de Páscoa, e o de Falecimento, diferenciado por três toques para homens e dois para mulheres. Por fim, referiu o toque de Finados, executado no término da missa e durante o cortejo fúnebre, e o de Arrebate, utilizado em caso de incêndio ou, historicamente, quando a população protestou contra o encerramento da Escola Básica da vila.
Por seu lado, Tom Hamilton partilhou que, durante os seus passeios pelas localidades e campos da Beira Baixa, descobriu que ainda sobreviviam tocadores de sinos. Sendo esta uma arte em vias de extinção, o investigador propôs-se a fazer recolhas e a preservá-la a memória coletiva das gentes da região, valorizando o enorme esforço físico que estes homens faziam para aceder às torres e tocar os sinos, independentemente das condições meteorológicas.
Tom Hamilton, que coordenou o evento do Toque dos Sinos em Castelo Branco em 2022 e 2023, realizou recolhas nos concelhos do Distrito de Castelo Branco e também no Concelho do Sabugal. Relembrou que o sino se fixou como um importante meio de comunicação em Portugal a partir do século XIII, mantendo a sua força até meados do século XX. O investigador aproveitou ainda a ocasião para mencionar os trabalhos de recolha que tem desenvolvido na Beira Baixa, noutras áreas, designadamente sobre petrologia, a água das fontes e os povos da Antiguidade. Também referiu o toque do búzio que se usava para acordar o pessoal da azeitona às cinco horas da manhã e que foram encontrados búzios preparados para esse efeito há 18 mil anos, apenas na Beira Baixa permaneceu essa prática.
O evento terminou com um concerto na Taverna do Ti Valérico, onde atuaram Tom Hamilton, Leonor Dias e Andrea Calland, que interpretaram música portuguesa e gaélica.