Edição nº 1966 - 7 de outubro de 2026

Valter Lemos
A FUGA PARA TRÁS

Todos os cidadãos conscientes estão preocupados com os tempos que vivemos. As grandes nações estão entregues a líderes extremistas e até aparentemente tresloucados. Trump governa os EUA contra todo o mundo e, por vezes, aparentemente, até contra os próprios norte-americanos. Putin resolveu assumir o papel do conquistador imperial agressivo e amoral. Para Trump a justificação é a “América primeiro”, para Putin é o “supremo interesse da Rússia”. As posições ultranacionalistas e egocêntricas destes dois são tão extremas que fazem parecer Xi, o ditador da China, um líder sensato e equilibrado.
No que respeita à Europa, de que fazemos parte, há mesmo uma conspiração histórica para o seu enfraquecimento e até o seu desaparecimento. Mas o pior é que essa conspiração tem cúmplices internos. Quem são os amigos de Trump? Quem são os amigos de Putin?
A Europa construiu a democracia, o estado social e o bem-estar económico. Com a companhia da América, que agora parece querer mudar de parceiros. As revoluções liberais do séculos XVIII e XIX trouxeram a liberdade e a democracia, o pós-guerra trouxe o crescimento económico e os anos 60 trouxeram os direitos humanos.
Os democratas cristãos e conservadores, junto com os sociais-democratas e socialistas democráticos construíram, nos últimos 80 anos, sociedades europeias com níveis de liberdade nunca existentes na história da humanidade, níveis de bem-estar económico nunca atingidos anteriormente, direitos civis, políticos e sociais nunca anteriormente reconhecidos.
O que é extraordinário é que haja muitos que queiram deitar tudo pela borda fora. Os amigos de Trump e de Putin, que não sendo necessariamente os mesmos, estão aliados nesta jornada anti Europa e antidemocracia liberal, atuam conscientemente (e muitas vezes inconscientemente, no caso dos seguidores) na destruição da Europa política e da Europa social. Têm aparecido muitas explicações no âmbito da sociologia e da teoria política para explicar este movimento. O que leva muitos europeus a contestar a democracia? A abandonar a defesa dos direitos humanos? A questionar e desistir do estado social?
Afinal os europeus são quem vive melhor no mundo, como mostram todos os indicadores. Podemos talvez juntar os norte americanos, e mais dois ou três países asiáticos. Quais as razões para o descontentamento que leva à adesão a ideologias e forças políticas que advogam precisamente a destruição desse modo de vida?
Veja-se o caso francês. A França tem significado porque, afinal, esteve no início de tudo isto. O que provoca tanta desesperança nos franceses? Afinal vivem num dos países mais ricos da Europa. São dos povos com mais direitos políticos, civis e sociais no mundo.
De acordo com as notícias os franceses estão divididos entre duas forças políticas opostas, mas que têm muito de comum. Ambas são extremistas. Ambas advogam a destruição do modelo político e social europeu. Ambas são russófilas e são amigas de Putin. O que leva os franceses a aderir a tais propostas? Há quem aponte a desigualdade existente na sociedade francesa. Custa a crer. A desigualdade é incomparavelmente maior na Rússia ou nos EUA. Aliás estes são precisamente dois países com maiores desigualdades económicas e sociais.
E nem os exemplos relevantes dos desastres já acontecidos parecem amenizar esta aparentemente louca fuga para trás. Veja-se o caso do Reino Unido. O povo britânico foi lançado para o Brexit por uma força política nacionalista de direita extremista e antieuropeia. O resultado foi o que se viu e todos os estudos mostram o erro cometido. Ainda assim o mesmo palavreado nacionalista antieuropeu continua a fazer caminho em diversos países.
O mesmo podemos dizer da experiência húngara. A direita radical antieuropeia mostrou-se má, corrupta e incompetente. A maioria dos partidos nacionalistas de direita extrema ou radical continuam a defender exatamente o que levou ao desastre húngaro de Orban.
No meio desta aparente loucura o Canadá continua a mostrar-se um dos melhores exemplos da democracia liberal, orientado por garantias de liberdade e de direitos humanos e talvez ainda venha a ser um importante fator de sobrevivência da Europa e do seu modelo político e social.

07/10/2026
 

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