Elsa Ligeiro
A ARTE DA PERDA
A morte intensifica amores e dilui com o tempo alguns ódios.
Visitar um cemitério nesta época é uma experiência quase festiva, em que as flores do Outono se transformam numa oferenda aos que nos deixaram entregues ao nosso destino particular. Um ritual necessário de apaziguamento com a nossa história pessoal e comunitária.
Durante muito tempo não visitei cemitérios; convencida que estava que a morte (se ignorada) não tinha peso nem lugar na vida.
Desconhecia que um cemitério é um lugar de acolhimento que reservamos a quem o coração (e o corpo) perdeu o poder que o animava. Mas também um segredo por revelar; e um enigma tão profundo como a vida.
E que todos (cada um no seu modo particular), vamos, paulatinamente, sobrevivendo à perda.
Há um poema de Elizabeth Bishop de que gosto muito, e que na tradução de Maria de Lourdes Guimarães, nos diz:
“A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias de intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.
Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
das chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Então procura perder mais, perder depressa:
lugares e nomes para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.
Perdi o relógio da minha mãe. E olha! A última ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de dominar.
Perdi duas cidades encantadoras. E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.
…”
A memória é a arte da perda. Através da memória reconstruímos o nosso mundo a partir de ruínas e escombros; primeiro a perda dos avós, depois a dos pais; e quando surge a perda, inexplicavelmente fora da ordem natural das coisas, de um filho; imagino-a como a mais cruel cicatriz que a vida nos pode tatuar.
Visitar os nossos mortos; num lugar cuidado como deve ser um cemitério; é, no início, reconhecer a nova morada dos que perdemos; e construir lentamente um precioso lugar de monólogos que a memória transformará (com o tempo) em diálogos profícuos.
Um prodígio a nossa memória, que aloja tudo o que a vida nos vai tirando; e serve, como na homenagem a Aristides de Sousa Mendes, para reiterar o caminho dos valores humanos que se devem sobrepor a qualquer tipo de dever ou ordem, quando estão em causa a vida ou o bem-estar dos nossos semelhantes.
Ou apenas a Justiça.
A desobediência civil de Aristides de Sousa Mendes que os representantes do nosso poder político tanto elogiaram estes dias; foi (é importante recordá-lo) considerada e julgada como um crime de traição à República Portuguesa pelo Estado Português, em 1940.
Também hoje, infelizmente, a Democracia, o grande alicerce da construção da igualdade e da liberdade que constrói a fraternidade; não nos garante a justiça plena.
Será, pois, a nossa consciência vigilante perante acontecimentos inesperados e sem exemplo; que dentro da nossa vida ordinária e perante situações extraordinárias, a marcar uma linha (se quiserem, vermelha) entre a obediência a uma ordem; e um exercício de cidadania plena e consciente. Enfrentando o perigo da denúncia frontal ou das afirmações mais contundentes serem julgadas como uma infração penal ou uma desobediência civil.