Lopes Marcelo
O NOME DA MINHA RUA
Quantas pessoas moradoras na mesma rua, conhecem quem foi e o que destinguiu a personalidade que mereceu dar nome à sua rua? O passado, a biografia e a obra dessa personalidade com quem convivem todos os dias é do conhecimento dos moradores?
Fiz a experiência na minha rua. Apesar de ter o nome de um grande escritor português, Camilo Castelo Branco, menos de metade o conheciam verdadeiramente. E se a pergunta fosse feita nas nossas escolas, quantos alunos o conhecem para além dos que terão tido a obrigatoriedade de o ler? E, em termos gerais da nossa sociedade, há quem não conheça a sua vida e obra e até quem pense que o seu nome derivará de ter nascido cá em Castelo Branco! Não se passará idêntica situação em relação à grande maioria dos nomes das ruas da cidade?
Num tempo em que existem tantos meios de divulgação dos conhecimentos, não faz sentido o divórcio entre os moradores e, até dos albicastrenses em geral, em relação ao rico mosaico cultural da vida e obra de quem, tendo-se notabilizado, ficou consagrado nos nomes das placas troponómicas. Não só por consideração e respeito, mas porque o sentimento de pertença e as raízes da identidade cultural se fundam na história da cidade, na vida e obra dos seus principais personagens. Assim, considero que seria de grande importância que as biografias das personalidades que dão nome às nossas ruas fosse recolhida e amplamente divulgada, através de um Projecto liderado pela Câmara Municipal.
Dando concretização ao referido, deixo aos leitores algumas notas sobre a biografia de Camilo Castelo Branco, embora necessariamente breves. Nasceu em Lisboa no dia 16 de Março de 1825. Tendo ficado órfão de mãe com um ano e de pai com dez anos, foi criado por uma tia. No enquadramento das débeis raízes familiares, teve uma juventude instável e aos dezasseis anos casou-se com uma jovem de quinze anos de quem teve uma filha, mas que durou pouco tempo, já que aos vinte anos fugiu com outra jovem numa relação que também pouco durou.
Com dezoito anos foi para o Porto estudar medicina, curso que não terminou face à sua vida aventureira iniciando aos vinte anos os primeiros trabalhos literários e a colaboração com o jornal O Povo. Alguns anos depois, morreu a sua esposa, bem como a filha. A par de uma vida conturbada e de parcos meios de subsistência, em 1850 agravou-se a sua crise espiritual e ingressou no Seminário do Porto, vislumbrando na vida religiosa uma saída, o que seria sol de pouca dura. Também é nesse ano que conhece Ana Plácido que, embora sendo casada, corteja apaixonadamente em sucessivos episódios dramáticos de envolvimento escandaloso. Só em 1859 Ana Plácido abandona o marido e vai viver com Camilo primeiro em Lisboa rodeados de críticas sociais e de dificuldades financeiras, até que vão viver para o Minho em São Miguel de Seide numa quinta, onde agora existe a sua Casa Museu. A vida aventureira e sem meios de subsistência contribuiu para que Camilo Castelo Branco tivesse tido necessidade de escrever intensamente para jornais, artigos de crítica, folhetos de contos e de romances, para ganhar a vida. Escreveu freneticamente sobre as suas aventuras de dramas e de tragédias, de forma realista e dramatizando os choques com as mentalidades da época, elevando a sua narrativa épica e passional cheia de personagens, quase sempre heróis causticados pela sociedade já que rompiam com a rígida moralidade de usos e costume, mas acabavam por sucumbir a um destino que os amarrava a um final dramático ou trágico. Foi, assim, Camilo Castelo Branco o representante máximo do Romantismo em Portugal. A sua obra intensa e muito extensa baseia-se na sua própria vida sofrida e aventureira, vivendo dos proveitos da sua escrita até ao final em que tendo cegado se suicidou com um tiro de pistola aos sessenta e cinco anos de idade . Com mais de uma centena de obras, destacam-se as novelas passionais (Amor de Perdição, Onde está a Felicidade, Um Homem de Brios, Estrelas Funestas, Estrelas Propícias e Amor de Salvação). Também a poesia, teatro, historiografia, contos, romances e novelas históricas, constam da sua obra extraordinária em que se revelou um dos mestres mais relevantes da nossa língua, reconhecido a nível nacional e internacional.