João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTE DOMINGO Portugal sofreu um terramoto que se sentiu de Norte a Sul. Um terramoto que talvez deixe fendas no edifício da democracia. Não por culpa da participação dos Portugueses no ato eleitoral, uma das maiores dos últimos anos a demonstrar vontade de mudar e consciência da importância do momento que se vive. Sim, pelo contexto em que aconteceram estas eleições.
Relembre-se que a crise começou com um comunicado emitido por Lucinda Gago, Procuradora Geral da República, que incluía um último parágrafo redigido por sua decisão única e com conhecimento do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Um parágrafo onde se sugeria haver, unicamente com base em escutas telefónicas, suspeitas de prevaricação do Primeiro-Ministro, desde então suspeitas cada vez mais frágeis e contraditórias, na opinião do próprio juiz de instrução. Ninguém acredita que não se adivinhassem as consequências.
E também parece difícil que o nosso Presidente-comentador não tivesse considerado as consequências da sua decisão de fazer cair um Governo de maioria absoluta, que sofria de críticas normais em democracia, mas que oferecia estabilidade nestes tempos tão difíceis. Marcelo teria de saber, como qualquer um que seria muito diferente haver mudança de Governo após o término de uma legislatura, do que após uma interrupção envolta em sugestões de corrupção, música para os ouvidos de André Ventura que neste contexto tinha todo o terreno adubado para fazer crescer o populismo e extremismo.
Há uma certeza, a relação entre o Partido Socialista e o Presidente que apoiou na recandidatura, já nunca mais será a mesma. Terminam os elogios mútuos e Pedro Nuno Santos já anunciou que o tempo do tacitismo terminou. Tudo isto, não sei porquê, faz-me lembrar-me a conhecida fábula da rã e do escorpião. O escorpião pede à rã que o ajude a atravessar o rio. A rã respondeu-lhe que, nem pensar, ele iria ferrar-lhe o veneno e morreria. Que não, assegurou, porque se ele o fizesse também morreria afogado. Convencida, a rã acedeu, mas no meio da travessia o escorpião injetou-lhe o veneno. Porque me fazes isto? Lamentou-se o batráquio. Vamos morrer os dois. Desculpa lá, responde o escorpião enquanto se afoga, está na minha natureza, tinha de o fazer...
Temos agora um parlamento muito fragmentado, com três grandes grupos parlamentares a prenunciar o fim do bipartidarismo. Com a AD a ter uma vitória de Pirro, o PS a ter uma derrota assinalável na generalidade do País, ainda que tenha tido resultado razoável no nosso Distrito, também pela primeira vez a viver em tripartidarismo. Mas há dois partidos que puderam sorrir e festejar. Um Chega, disruptivo e com propostas extremistas, a serem acolhidas por mais de um milhão de eleitores de Norte a Sul e o Livre, de Rui Tavares, com posições moderadas e agregadoras na esquerda a ganhar um grupo parlamentar de igual dimensão do PCP e a um deputado do BE. Um feito notável, acima de tudo uma vitória pessoal de Rui Tavares. E há uma realidade que não se pode escamotear: o País virou à direita de forma muito clara, a esquerda foi derrotada. É a democracia a funcionar.