Edição nº 1950 - 10 de junho de 2026

Antonieta Garcia
ERA UM GRUPO JOVEM COM MÃOS-CHEIAS DE PALAVRAS

Inventavam a esperança, falavam incansavelmente. Organizavam atividades que reforçavam as velhas colunas lindas, abençoadas, que se elevavam e, vá lá saber-se por que razão, acercavam amigos. Muitos amigos.
O grupo, de quem falamos, na verdade, tinha um líder aceite, lúcido, que recusava o mais ou menos. A comunicação era cuidada, a regra escolhida a preceito... Por estas razões e outras foi crescendo o número de participantes. Na verdade, era um feitiço ouvi-los.
Quando nos encontrávamos, mais frequentemente, era nas noites longas, compridas.
Víamos, muitas vezes reproduções de pinturas perfeitas. Por exemplo, a tela de Klimt, era uma pintura austríaca famosa: integra a coleção Belvedere Palace Museum, situado em Viena. Exibida pela primeira vez em 1908, não saiu mais do lugar.
Esta tela, como tema amoroso, foi pintada com folhas de ouro. Eram abraços que nos conquistavam para a ideia do conforto e da proteção.
A Poesia estava presente nos convívios que desabrochavam, desde que a presença de dois...e até mais de dez, estivesse garantida; e, se fruíssem palavras que se queriam abertas ao prazer da Fala, às vezes, o silêncio começava a constranger.
Valiam as noites luarentas, longas, harmónicas. Mesmo em dias de procela, quando se apagava o silêncio e a tertúlia ganhava deleite anunciando a vivência em liberdade, ali, pertinho, vizinha de um Paraíso maior.
Outra presença obrigatória era o painel pintado por Pablo Picasso, em 1937. Tem como tema o bombardeamento ocorrido no dia 26 de abril de 1937, na cidade Guernica. Tive o prazer de o admirar no museu Rainha Sofia.
(...)
Apesar de mudanças inevitáveis, o grupo perdeu jovens; a discussão mascarava feitios de indignação. E a tertúlia, feliz, andava à toa.
Ora, estava eu em casa “posta em sossego” relativamente a saberes que voavam como, tópicos, e pedimos que o cordeiro tire os pecados do mundo.
Sabíamos pouco, e queríamos abordar temáticas mais alargadas. Novas matérias cheias de montanhas de comentadores e de outros sapientíssimos doutores, esclareceriam o ser e o não ser...
E lá está ela, de olhos vendados, com a espada e a balança, atributos indispensáveis para que a dita proceda, em conformidade, com as regras convencionadas.
Na verdade, no contexto atual, alguns são loucos. Estudaram anos a fio, competem uns com os outros. Sabem do que falam; quando se trata da humana condição nada é linear. E vira o disco e toca o mesmo: Dura lex, sed lex...
As portas foram-se fechando? Com liberdade? Quem é? Uma mulher. Desde a Eva. Quando a interdição de comer da “Árvore da Sabedoria” soou, transgrediu. Foi o pecado no feminino. Gente da Beira Serra declara-se fã da Senhora, Mãe dos Prazeres. Do pomar, distribui maçãs, rosas, papoilas, rosas albardeiras e cravos. Serra linda!
Formou-se uma roda...
E em abril e maio, presenteámos todos os amigos erguendo novas e velhas taças à Igualdade, à Justiça e à Fraternidade...
Dissemos que o jovem líder do grupo era um falador incansável. Passava a vida investigando, em florestas de palavras, construindo cabanas e prados de doutrinas.
O céu vestiu-se de azul. O sol, a solidão e a saudade sentaram-se ao nosso lado. Esperávamos que viessem todos cedo...
Será que ainda veem todos os amigos para os debates?

10/06/2026
 

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