João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
FOI ESTA TERÇA-FEIRA apresentado no auditório da Biblioteca Municipal o livro solidário O Sabor da Lusofonia, editado pela Associação Mais Lusofonia, dirigida por Sofia Lourenço. Ali se apresenta, mais que uma coleção de receitas, alguns exemplos da gastronomia portuguesa, regional, e de inspiração lusófona. E o interesse da obra também reside no facto da gastronomia ser um dos mais fortes traços sociológicos que alimenta a união, a inclusão e o sentimento de pertença à comunidade. Sendo assim, não surpreende que a gastronomia seja objeto de estudo pelos cientistas sociais, em particular pelos antropólogos. Ocupou parte muito importante na Etnografia da Beira, obra maior de Jaime Lopes Dias. E ganhou uma relevância especial nos tempos mais recentes com os trabalhos dos gastrónomos José Quitério e Alfredo Saramago, este último que além de gastrónomo reputado era também antropólogo, com um livro dedicado à cozinha da Beira Interior. E sem esquecer Maria de Lurdes Modesto, muito mais que uma simples ”cozinheira”. Experimentem ler alguns dos livros que publicou ou a revista Preguiça, dirigida por Miguel Esteves Cardoso, sendo ela e Alfredo Saramago colaboradores principais. E já agora, não quero deixar de referir um delicioso (de ler) livro do académico Albino Forjaz de Sampaio, Volúpia, a Nona Arte: A Gastronomia, publicado em 1939. A maioria destes autores aqui referidos até poderia não saber fritar um ovo, mas entendiam muito desta nobre arte (ou ciência) gastronómica.
O estudo antropológico da gastronomia é muito mais que uma coleção de receitas de cozinha. É uma confluência de saberes na recolha das receitas, com base tanto em fontes escritas como na tradição oral. Tendo sempre presente o contexto em que o prato sobe à mesa e os seus intérpretes. Com recurso a produtos endógenos e de época, cozinha económica e sem desperdícios, podia falar de questões de sustentabilidade e da redução da pegada ecológica, problema que preocupa a minha neta Leonor, e inúmeros outros jovens (influência positiva da Escola).
Voltando à lusofonia, a gastronomia, como a língua, é das primeiras influências dos colonizadores. Sem pretender aprofundar, temos o exemplo do Brasil onde a cozinha tem muitos traços portugueses, sedimentados ainda mais durante o período em que a Corte, com todos aqueles nobres, comerciantes e respetiva criadagem, acabaram por replicar ali, tanto quanto possível, os hábitos alimentares da “Mãe Pátria”. Mas sem esquecer que a gastronomia, se alimenta também da multiculturalidade, promovendo a troca de experiências e a valorização da diversidade. No caso do Brasil, refiro só a título de exemplo o tupinambo, que aqui ganhou novos nomes. Na minha aldeia é a batarata, como noutras é o girassol batateiro.
Fora dos países lusófonos, o exemplo mais interessante é o caso do Japão, onde os portugueses aportaram no século XVI, sendo os primeiros ocidentais a chegar à ilha. Deixaram ali uma herança cultural que ainda hoje os japoneses não renegam. Na gastronomia, por influência dos jesuítas ficou, entre outras coisas, a Tempura, que tem origem no latim Ad Tempora Quadragesimae, um alimento para tempo de quaresma, que não é mais que o nosso peixinho da horta. E por aqui me fico, lembrem-se de comer bem, para bem viver.