João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTA SEMANA é a festa da minha aldeia, Benquerenças. Os festeiros nomeados para os dois anos já andam numa azáfama a enfeitar as ruas e a montar todas as estruturas de apoio às festividades. Ainda há pouco na mesa da Associação se lembravam as festas de outros tempos, dos nossos tempos de catraios quando a festa, todos os anos sonhada, era por nós vivida com entusiasmo.
Lembrei Prelúdio de Festa, um conto de Trindade Coelho, que integra Os Meus Amores, e não resisti a reler. O conto desenrola-se à volta da rivalidade entre o juiz da festa, o António Fagote e o seu antecessor José da Loja. E nesta rivalidade o fogueteiro era a peça central. Tinha escrito ao juiz a anunciar que nesse ano o fogo preso teria uma cegonha e talvez mais animalejos. António Fagote fez logo saber a toda a aldeia da grande novidade, antecipando já a aclamação do povo. E já não se falava de outra coisa, dizia-se que o fogo preso teria além da cegonha, um cavalo, um bezerro, um urso e até um camelo… Não largavam a porta do juiz, cada um a pedir o animal da sua predileção… E o António Fagote já dizia mal da vida, arrependido de não ter guardado a novidade para o dia da festa (e mais não conto).
A festa da minha aldeia nos anos sessenta, vista pelos olhos de uma criança era também um momento mágico de todo um verão de férias grandes, em horizontes curtos mas onde cabiam muitos sonhos e aventuras.
Era incontornável. O baile no estreito adro da igreja era abrilhantado, à vez, pela Orquestra Ferrugem ou pela Orquestra Ideal, de Portalegre. Depois virá o célebre conjunto feminino Tirapicos a despertar lubricidades na rapaziada e a quem o próprio senhor padre António que, ao microfone da aparelhagem fazia também uma perninha na animação da festa, não resistia a lançar uns piropos bem arrojados. Mas ninguém levava a mal porque o padre António era assim mesmo, uma santa pessoa, amante das coisas boas da vida.
Um ano houve uma novidade: o fogo preso. Podia não ser o macaco, o burro ou o camelo do conto do Trindade Coelho, mas era uma girândola de fogo como até ia não se tinha visto. Por isso, nessa noite o pequeno adro ainda mais se encheu. As mulheres trouxeram a cadeira de casa, que a noite era comprida e havia que estar de olho na cachopa, não fosse ela andar a dançar mais agarrada, ou a ser catrapiscada por algum cachopo que estivesse no índex caseiro. Quando chegou a hora, a orquestra calou-se. As mulheres pegaram no assento e vai de se posicionarem mais próximo do acontecimento. Bem se pedia ao microfone que se afastassem. Mas a curiosidade era mais forte e vai de avançar. E se não havia nada a fazer, então que siga a festa. Aproxima-se o fogueteiro de mecha na mão, acende o rastilho e, segundos depois, um estupendo petardo marca o início da girândola de foguetes.
Ninguém me pergunte como foi o fogo preso, porque ao primeiro estampido, foi o pânico geral com as mulheres e, concedamos, alguns homens, a só pararem uns bons 100 metros, ao fundo da rua. O adro mais parecia um campo de batalha... de cadeiras partidas. Foi uma risota geral, as mulheres ainda tremiam com os nervos, que isto não era coisa que se fizesse, enquanto juntavam os pedaços do que fora uma cadeira. E o bem abrilhantado baile lá continuou.
E foi tudo isto que eu lembrei hoje. A festa pode já não ser vivida da mesma forma, mas continua a ser ponto de encontro de amigos. À boa maneira da hospitalidade beirão, apareçam que eu pago uma rodada.