10 de maio de 2017

JOSÉ DIAS PIRES
Regressos

Sentado no banco de jardim, relia, num recorte de jornal, o velho poema de João de Deus: A vida é o dia de hoje, a vida é ai que mal soa, a vida é sombra que foge, a vida é nuvem que voa; a vida é sonho tão leve que se desfaz como a neve e como o fumo se esvai: A vida dura um momento, mais leve que o pensamento…
Fui interrompido pelo louco do meu bairro que se sentou a meu lado. Sem aviso.
«Regressei!» disse, sorrindo. «Sabes, alguns regressam sem avisar, não é? Ao contrário dos que regressam de verdade, pela madrugada, sozinhos, tranquilos e em paz com as suas ausências, os profissionais do regresso fazem-no sazonalmente, em práticas, quase rituais, durante o tempo mínimo e suficiente para se fazerem notados. Evitam cruzar-se ou que os cruzem em comparações desnecessárias e juízos de valor descabidos porque, afinal, o tempo mínimo representa muito para quem regressa e são quase nada para quem permanece…»
Deixei-o a falar sozinho. Entre tantos regressos, lembrei-me como Esopo descobriu a minha morada e, verdadeiramente zangado pela preferência que tenho dado a La Fontaine (como meu inspirador de fábulas), me enviou, para que me sirva de lição e de exemplo, a seguinte fábula:

Esta é que é a Verdadeira História da Lebre e da Tartaruga:

A lebre tinha o complexo do feijão branco e a tartaruga manias de cinema mudo. Ocorriam, sem nexo, por um barranco, procurando, uma delas, ganhar tudo.
A lebre convencida de ser muito saborosa e a tartaruga de ser veloz ciente faziam pela vida (qual delas mais manhosa) para ganhar o País, enganando toda a gente.
A lebre (alimentada com sopa de feijões) imaginou, nos gases, o combustível da vitória. Engalanada em boletins de euromilhões, partiu para a corrida dos heróis fugazes que apelam sempre à falta de memória.
A tartaruga ficou deliciada com uma frugal salada de caracoletas julgando ser assim possível ultrapassar, do som, a velocidade. Com patins em linha foi calçada, imitando os mais modernos atletas e tentando imaginar-se invisível para enganar toda a cidade.
Depois de aparente corrida entre diferentes, cedo se viu que estava tudo combinado: corriam igualzinho as duas, na avenida. Cerravam da mesma forma os seus dentes, seguindo exatamente para o mesmo lado. Mas desconheciam que o juiz era o indiano e afamado cozinheiro Costa capaz de cozinhar quaisquer animais vadios de pelo ou carapaça. Na verdade, atento a tanto aparato, o seu nariz não se deixou levar pela primeira e à segunda nem deu tempo de pensar: juntou no panelão os dois corredores sadios e preparou opípara sopa de caça.
Ainda há quem de bem julgar se ousa a coser a direito e sem conselho com agulhas tortas. Mais tarde, descobrimos que a tartaruga se chama Cristas qualquer coisa e a lebre habilidosa qualquer coisa Coelho.
Sentado no banco do jardim, reparei que o louco do meu bairro acabava o seu longo discurso.
É assim a lucidez dos loucos: não se explica, sente-se. Temo ter percebido, irremediavelmente tarde, que os loucos são os mais lúcidos de todos nós, e possuem a sabedoria que não se vê. Por isso não regressam, continuam.
E nós?


10/05/2017
 

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