Edição nº 1837 - 27 de março de 2024

Elsa Ligeiro
A POESIA DA RÁDIO NA VOZ DE FERNANDO ALVES

Fernando Alves tem uma voz inconfundível, e, segundo o próprio, nunca trabalhada. Nasceu com ele, e possivelmente permaneceria no anonimato se a sua condição social o levasse a trabalhar nas obras da construção civil.
Mas ele apaixonou-se pela rádio, pelo mistério da rádio, pelo exercício da sedução através da voz.
Ainda bem, para a alegria dos que amam essa companhia doméstica que, na minha adolescência era livre e independente da rede elétrica, graças às “pilhas” que permitiam o seu transporte ora para o quintal ora para o meu quarto onde escutava com atenção as notícias. A atualidade do país e do mundo, na minha aldeia da Beira Baixa.
Conheci o corpo da voz de Fernando Alves na Maratona de Leitura na Sertã, numa sessão realizada no quintal da Casa do Gigante que o poeta Miguel Manso herdou dos avós e transformou em espaço de poesia, no concelho da Sertã.
Ali estava, mesmo à minha frente a Voz a partilhar com todos os presentes um poema de “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro.
Fechei os olhos naquela tarde de julho quente, e a voz da TSF inundou, com palavras de Caeiro, a Casa do Gigante que se transformou no que cada um dos presentes conseguiu imaginar.
A voz de Fernando Alves, que, diariamente, iniciava os meus dias úteis com os seus sinais de humanidade.
A rádio acompanhou a minha infância e adolescência como uma tábua de salvação; e foi uma ponte para o mundo que sempre imaginei maior que a minha aldeia; com outras riquezas e misérias.
Na rádio, antes da poesia de Fernando Alves, recebi na voz de Júlio Roberto a primeira lição de ecologia, com a “A Carta do Grande Chefe Seattle”, que continua ainda hoje gravada na minha memória.
Pela rádio chegaram-me crónicas de Fernando Assis Pacheco e outros jornalistas que semanalmente partilhavam reflexões sobre o país em revolução.
Lembro-me especialmente de uma sobre os murais que acolhiam as palavras de ordem guardadas na alma dos portugueses e que, após a Revolução, as escreviam em muros brancos como manifesto de um Portugal Futuro.
Contou Assis Pacheco que um seu amigo, com uma paciência de Job, lá ia aceitando pintar uma e outra vez o seu muro de branco, após o terem utilizado para as suas mensagens políticas com tintas negras ou vermelhas.
Tudo aceitava; todas as palavras eram motivo de um sorriso acolhedor até ao dia em que um clamoroso erro ortográfico o fez perder a paciência, e foi ele a protestar publicamente.
O PREC vivi-o em Alcains com a preciosa ajuda da Rádio, já o confessei em outras ocasiões. O que não disse foi que com o aparecimento da TSF nasceu uma escola de jornalismo radiofónico em Portugal; como a cooperativa que publicava “O Jornal” o foi para o jornalismo escrito, logo após a Revolução do 25 de Abril de 1974 (e como Rafael Correia, com o seu “Lugar ao Sul”, nos anos oitenta, já era um precursor do futuro da rádio em Portugal).
Fernando Alves foi o jornalista da TSF que deu voz às palavras que têm a força e a grandeza do que é essencial. As que separam a Poesia do prosaico.

Fernando Alves, que visitou Alcains em janeiro deste ano para participar no almoço que a Biblioteca Comunitária dedicou ao aniversário do alcainense António Ramalho Eanes, emprestou desde sempre a sua voz aos grandes autores de língua portuguesa; e especialmente à Poesia que teima em se esconder na espuma dos dias.
Uma grandeza do essencial que Fernando Alves diária e laboriosamente nos trouxe dia após dia, durante décadas, à superfície da nossa realidade, partilhando-a como Sinais, na sua e nossa TSF. Bem Haja.

27/03/2024
 

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