De Tão Cansada a Esperança apresentado na Livraria Caixotim
A Livraria Caixotim apresenta esta quarta-feira, 18 de dezembro, às 18 horas, o livro De Tão Cansada a Esperança, uma coletânea de poemas recentemente editada. A obra será comentada pelo ensaísta Paulo Samuel e contará com a participação do organizador Pedro Salvado, bem como com a leitura de poemas por alguns dos autores que integram a coletânea.
De Tão Cansada a Esperança reúne vozes poéticas em Espanhol e em Português, cruzando diferentes gerações, num conjunto que ultrapassa a centena e meia de poetas. O prefácio que enquadra o projeto editorial, da autoria do médico António Lourenço Marques e do historiador Pedro Salvado, justifica o alcance cultural e literário desta iniciativa editorial.
Iniciadas em 1989, as Jornadas de Estudo Medicina na Beira Interior da Pré-História ao Século XXI têm-se afirmado como um momento privilegiado de cruzamento de saberes, práticas e sensibilidades. Nelas a Medicina é abordada não só como ciência que revela uma profunda historicidade, mas também como uma arte, um conhecimento, uma ética, um cuidado, uma expressão cultural. É neste ambiente fértil, onde a interrogação continuada do ser humano e das suas circunstâncias se faz numa totalidade e complexidade física e emocional, que a poesia encontrou o seu lugar natural como manifestação elevada da condição humana, como linguagem do indizível, como voz da esperança que persiste. Porque onde há humanidade, há sempre lugar para a arte de escutar e de sentir. E é nesse cruzamento entre o rigor da ciência e a subjetividade da linguagem que estas Jornadas continuam a inspirar novas formas de ver e compreender o Mundo. Foi assim que as convergências poéticas, nunca classificadas como antologias (uma antologia presume uma escolha e estas edições são convergências do sentir que compelem a escutar vozes do outro), passaram a acompanhar o singular percurso das Jornadas, reforçando uma dimensão complementar e profundamente simbólica desta realização. Cada coletânea foi mais do que um simples conjunto poemático: constitui um gesto de memória afirmador de uma cronologia de reflexão e de compromisso com os valores que encorpam estes encontros. Em cada título gravou-se um eco das inquietações do nosso tempo assumindo-se um conjunto de respostas que traduzem, afinal, os grandes temas da condição humana. Assim germinou O Sangue dos Rios evocando Fernando Namora, médico, escritor e poeta profundamente ligado às Beiras, cuja obra retrata um olhar humanista e sempre atento. O Cerco da Pandemia e Letras Confinadas deram voz ao impacto da crise sanitária global, mostrando como a palavra pode ser resistência e consolo. Seguiu-se Inventário das Travessias, inscrições sobre os dramas e os anseios das migrações fenómeno que trespassa fronteiras e corações e que, todos os dias, desafia a nossa capacidade de acolher e de aceitar que o Mundo é composto de diferenças. Jornadas e Curas, simples cadernos agrafados, foram os títulos que iniciaram o registo, estabelecendo o primeiro círculo de colaboradores-poetas destas Jornadas, círculo que se ampliou a poetas que se enraízam em territórios do mundo hispano-americano e que reforçaram o âmago destes encontros onde o saber se faz escuta e o cuidar se transforma em palavra. Mais recentemente, registe-se O Corpo do Coração, uma homenagem à Paz, valor essencial e frágil, que a poesia ajuda a nomear, a preservar e a defender. Porque nestas Jornadas a poesia, como linguagem mais próxima da vida, não é adorno: é essência. A presença da poesia nas Jornadas foi, desde o início, quase inevitável. O valor superior da palavra, cultivado com rigor e beleza, encontrou aqui um terreno apropriado. Ninguém melhor do que António Salvado, o grande mentor destas reuniões de sentires, para simbolizar essa fusão entre ciência e arte, entre razão e sensibilidade. Poeta da Esperança por excelência, a sua obra e o seu exemplo continuam a inspirar este percurso, lembrando-nos que cuidar do corpo é também cuidar da alma, e que o conhecimento só é pleno quando se abre ao mistério da vida. A concretização destes inventários poemáticos foi particularmente ativada por Paulo Fernandes, presidente da Câmara Municipal do Fundão, cuja ação tem sido norteada pelos valores do Humanismo. Líder exemplar da nossa beiranidade para utilizarmos um conceito devido ao Professor António dos Santos Pereira, Paulo Fernandes tem promovido, com visão, uma cultura do bem comum, da solidariedade, do acolhimento universal. A sua crença na possibilidade de uma convivência mais justa e mais feliz ressalta em profundidade da sua ação pública. A poesia, também na sua ótica, ultrapassa o ornamento, é uma ferramenta de transformação, uma linguagem do cuidado, uma promessa de futuro. Esta nova ligação de palavras que envolvem a Esperança é, assim, um convite à leitura e à escuta. Um gesto partilhado. Um testemunho de que, mesmo em tempos difíceis, a palavra pode ser abrigo, ponte e horizonte. Lembrando os velhos grandes mestres da Medicina, que construíram o edifício, e que juntavam aos seus textos fundadores, logo na abertura dos livros, um clarão poético, também aqui se deseja que a poesia continue a acompanhar o caminho da Medicina, iluminando-o com luz própria, que é também a luz da Esperança. “De tão cansada, a esperança adormeceu” escreveu um dia António Salvado, pedindo “Que se lembre de mim quando acordar. Eu ficarei à espera”. Todos os poetas aqui presentes, decerto, virão acordar do silêncio os rostos da tão esquecida, mas sempre rogada, deusa Spes. As palavras despertam, sempre.
António Lourenço Marques e Pedro Salvado