Edição nº 1941 - 8 de abril de 2026

José Dias Pires
SÓ EM LIBERDADE, O CORAÇÃO TEM OLHOS QUE VEEM MUITO PARA ALÉM DO OLHAR

A minha relação com a literatura começou muito cedo. Não tinha o cheiro do papel e da tinta, mas tinha o perfume das palavras dos mais velhos. Cresci com a literatura dos afetos: as minuciosas e detalhadas histórias de aventuras que nos chegavam ao fim do dia. Era uma literatura oral na qual eu bebia as saborosas palavras cheias de sombras romanceadas e de metáforas luminosas que me acicatavam a ignorância e me impeliam para a impaciente leitura de sabedorias escritas nas memórias de outros.
Com elas aprendi que o coração tem olhos que veem muito para além do olhar. Para alguns de nós, na noite (bem dentro da noite) há uma terceira gaveta, bem no fundo da cómoda, onde se guardam as memórias ruidosas para um dia as olharmos. E as outras gavetas, descansadas, lembram apenas o silêncio, invisível. Conveniências.
Para poucos de nós, há um momento em que os laços do tempo se transformam num nó. Chamam-lhe instante eterno, eco perpétuo e é apenas (sendo tanto) o episódio em que a vontade se transforma em cobardia. Depois, como os peixes, fica-se, ali, à espera que dos nós floresçam laços: sem conseguir lembrar o que se acaba de esquecer ou a confundir a vida pelo som das palavras: a noz dos dois hemisférios comestíveis; o nós dos dois hemisférios irrepetíveis e os nós, esses mistérios dos laços de duas pontas para desatar.
Por aí andamos entretidos (por aqui andamos distraídos) entre o que se engole, o que não se repete e o que não se desata, à espera que mude o que não muda: o tempo, os tempos, as datas, os factos.
Algumas datas, como os sonhos, perdem o prazo de validade (mas nunca a liberdade), mesmo assim, valem pelo que valeram: a pena, as penas… que pena.
E nós, o que somos perante tudo isso? Um conjunto de marionetas, que vive, sem saber, uma vida controlada por mentiras sempre aceites como imutáveis verdades? Para onde caminhamos? O que há por detrás de tudo o que se oculta, que se afirma não existir, que é garantido ser apenas fruto da imaginação doentia de mentes doentes? O que há no outro lado do mar (que é já aqui no virar da esquina) onde não chega a nossa vida?
Será que nos pesam os pesares? Cada vez mais somos menos capazes de olhar para as mãos.
Olhemos, pois, as mãos. Apesar dos dias em que nos apetece nada fazer, como se a um jardim lhe apetecesse não ter uma única flor; apesar das flores que fingem de primavera nos invernos, como se à falta de ternura lhe bastasse apenas um sorriso: não foram os nossos dedos madrugada? Nesse tempo, como sinais de alerta e de prazer, pareciam ser capazes de transformar os outonos em verão.
Contudo, se olharmos as mãos, conseguiremos ler o seu aviso? E agora?
Agora, apesar da ausência que, sem razão, nos acontece, como se ao silêncio se roubasse o zumbido de uma abelha; apesar dos desertos que invadem, sem sentido, os oásis, como se à cor a embrulhassem, de vez, na noite escura, devemos olhar as nossas mãos e perguntar: não foram sempre muito mais do que aos conformadores apetece? Carinho, almofada, porta, parede, telha? Templos de muita oferta? Cesta de pedido? Amor, amar, amizade e tudo o que é ternura? Verdade? Liberdade?
Apesar dos olvidos que disfarçamos, olhando para o lado, como se ao esquecimento a desculpa lhe oferecessem; apesar de tudo isto, parece que apenas somos capazes de apontar os outros, como se à nossa sombra incomodasse a alegria matinal.
Olhemos as mãos: que mundo é este que nos oferece um presente sem passado?
Sim, olhemos as mãos: que vida os seus dedos lhe merecem?
Sim, sim, olhemos as mãos: temos tanto caminho ainda por andar! Será que temos medo de deixar na vida uma impressão digital?
Sinal dos tempos. Hoje, e nos amanhãs que se aproximam, há, de facto, um problema com os que ficam a olhar para dentro, não conseguindo sequer olhar-se por dentro.
Ainda bem que nem sempre (nem para sempre) somos a roupa que nos pomos: na verdade, quando chegamos (à vida) e quando partimos (da vida), estamos nus, absoluta e simplesmente nus.
Uns a desejar olhar a caixa mágica (seja ela o que for) de plásticas ilusões orientadas de conveniência, a fingir que olham, na conveniência de quem sai da caixa mágica (seja ela de quem for) mascarando o olhar de preocupada ignorância, outros a defender, com a própria vida, a liberdade.
Felizmente que só em liberdade o coração tem olhos que veem muito para além do olhar.
Assim seja.

08/04/2026
 

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