João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESCREVE ESTA SEMANA no Expresso uma conhecida jornalista que não há melhor que estar fora (nas suas possíveis semânticas) umas semanas para perceber como tantas coisas continuam igual, a loucura do Trump, o sinistro cinismo do Putin ou a inutilidade do pacote laboral, por exemplo. E também como poucas coisas mudaram. Como a vacuidade e inutilidade do Chega a serem cada dia mais destapadas. No encontro dos partidos da direita mais extremada da Europa que o Chega organizou no Porto há semanas atrás, alguns líderes mais experimentados dos partidos e movimentos irmãos já haviam avisado Ventura dos perigos decorrentes do crescimento demasiado rápido do partido, que era preferível ter um percurso mais lento, com tempo para criar estruturas e equipas sólidas, a querer chegar ao poder já, logo ali ao voltar da esquina.
E as últimas intervenções do líder da extrema direita mostra que, goste-se ou não, sendo ele um político inteligente, tem hoje a perceção de que o chão lhe está a fugir dos pés, que os tik tokes estão a deixar de ter graça, que a tropa chegana que arranjou para os combates políticos na Assembleia da República ou nas autarquias são na maioria insanos, que não se levam a sério, muito barulho, vazios de ideias e oportunistas que dão de frosques logo que acham que já não precisam do partido.
E as últimas sondagens mostram que está em queda, reflexo daquilo que mostra o mais recente barómetro da Pitagórica sobre o sentido de voto dos eleitores jovens, entre os 18 e 34 anos que são quem lhe deu o lugar que hoje ocupa na AR. O resultado do estudo dá o Chega a passar de líder nesta faixa etária para quinto lugar, atrás da AD, PS, IL e do Livre.
Isto deve preocupar Ventura. E a estratégia é a da fuga para a frente, quando tik tokar já não chega e quando temas como a insegurança e os imigrantes parece que estão a passar de moda. Para afrontar a memória da tal “revolução miserável” com que mimoseia o Movimento dos Capitães, escolheu o cravo verde e só tarde de mais descobriu que é, desde há muito, símbolo do homossexualismo, popularizado no século XIX por Mark Twain e usado na lapela como código secreto; foi a disparatada e pífia manifestação anti Lula, junto ao palácio de Belém, com adereços comprados em sexshop. Para terminar, qual cereja no topo do bolo, na defesa dos polícias presos ou suspensos na sequência de investigações aos maus tratos, violência e violações praticados por polícias em duas esquadras de Lisboa. Com a agravante de convocar manifestação de polícias para a porta da Assembleia da República e defender que Luís Neves, ministro da Administração Interna, devia era preocupar-se com a insegurança e a praga dos imigrantes em vez de perseguir estes agentes da ordem que, coitados, cometeram tão pequena e desculpável infração. A honra de uma corporação que integra muitos milhares e que merece TODO o nosso respeito, não pode ser conspurcada por algumas dezenas de elementos, capazes de praticar estes crimes ignóbeis e até será interessante saber, pela adesão à manifestação, quantos agentes consideram, como Ventura, aceitável e defensável a prática destes crimes. E será também uma boa ocasião para questionar os seus eleitores sobre se se sentem confortáveis apoiar ou militar num partido que defende polícias que violam, maltratam e torturam os cidadãos mais vulneráveis da sociedade e que, considerando-se impunes e heróis, divulgam as suas nojentas práticas, nas redes sociais em grupos de What’sApp.