Edição nº 1737 - 13 de abril de 2022

DOIDO VARRIDO

Que faço? Sei lá! Doido varrido, vale-me esta loucura que só eu sei, só eu sei. Descobri um clique que fecha a porta à realidade e passeio-me, quando e por onde me apetece. Gosto de curvas difíceis que nem as de Nisa, antes da A23. Cativam-me as alamedas floridas matizadas de primavera e de outono. Sou livre!
Nestas peregrinações, é usual cruzar-me com personagens de mil cabeças... Tenho medo das vozes e dos segredos que confessam. Tapo os ouvidos. Satisfazem-me agora as ideias que se soltam dos monólogos, no cimo da Serra. Sinto-me pequeno, aflito, ansioso... Quem disse que o grito aliviava? O do Ipiranga, que é o da revolta, grita-se de peito aberto. O lancinante estrangula a respiração e desprende-se em ecos de dor, de mágoas.... Quantas desistências se enrolaram nos clamores da estrada cheia de ruídos de motores e de gente só?
Desço de cabeça à roda, dorida... Por onde ando, para onde vou?
Que é da Senhora Solidão, visita assídua nas montanhas eternas, cheia de lutos, de abandonos, de perigos? Não fala! Fecha-se em concha e ninguém sabe, ninguém conta...
Afinal, cresci sem dar conta e tornei-me desconhecido, hóspede de um corpo que enruga e envelhece e não se entende.
Bem vejo que me olham com pena, com raiva, com irritação, indiferença:
- Parece que é doido!
Os olhares afastam-se, libertam-se assustados do passado. Doido varrido?
Ora bem! Os efeitos do comprimido começam a manifestar-se. Acumulo culpas, colesterol, diabetes que tresandam a preguiça e a fuga à vida!
Enjoado, estonteado; diz-me o teu nome, tece-me fios que prendam os excessos de demónios que me assaltam e sufocam. Perseguem-me narizes aquilinos, risos mordazes que me fazem descer aos infernos sem consciência do presente.
Colo-me rentinho à parede: que ninguém me veja! De que quantidade de siso precisa um ser humano para sobreviver? Qual o lugar seguro?
Os sítios movem-se e sobrevivem fantasmas de mim, estranhos, ausentes, em vertigem...
Naquele dia, tinha colocado um papel dobrado no hábito de Santo António. Com um pedido. Afastei-me das palavras de oração dita, repetida, em moinho de palavras sem sentido, tantas vezes enrodilhadas na língua e com o pensamento em fuga.
Eu sei o que o papel dizia. Eu e o Santo, advogado dos perdidos, milagreiro, com o Menino ao colo e que Augusto Gil ouviu, no passeio ao cair da noite, entre o convento e a fonte onde aquele par de namorados brincava com Eros, sem pecado.
Eu escondera o papel. Com vergonhas, mas com fé, escrevi em código o meu pedido de sonho: Dois zeros, lado a lado.
Quem adivinha? Se alguém vir o papel não entende, mas não é vergonha pedir ao Santo! Dois zeros que significavam o que sempre recebia: NADA!
Durante anos repeti o ritual. Peguei-me com o meu Santo, advogado dos perdidos, amigo do Menino e dos meninos carentes como eu! Ensinou-me um clique em muitas palavras que adorna a realidade e passeio-me, quando e por onde me apetece com a Senhora Solidão.
Doido varrido vale-me esta loucura que só eu sei, só eu sei.

13/04/2022
 

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