João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ALGUMAS SEMANAS DEPOIS da apresentação do relatório da Comissão Independente sobre abusos sexuais na Igreja, que deixou os portugueses em estado de choque, esperava-se que a hierarquia tomasse medidas que fizessem recuperar a confiança dos fiéis, que evidenciasse de forma plena a determinação em afastar os causadores de todos estes males. Mas infelizmente não foi isso que se viu. A primeira surpresa que saiu da reunião de 3 de março da Conferência Episcopal Portuguesa, foi a de atribuir a cada bispo na sua diocese, a decisão de suspender preventivamente de funções (não é condenar) membros da igreja incluídos na lista entregue pela Comissão, de possíveis abusadores denunciados pelas vítimas. Resultou daqui o que qualquer um esperaria, a disparidade de critérios. Algumas dioceses avançaram desde logo com suspensões, outras assobiaram para o lado, alegando várias razões, direito ao contraditório ou necessidade de provas mais evidentes e até a incrível afirmação de que os padres abusadores após penitência poderiam ou deveriam ser perdoados. Atitudes que são vistas pelos portugueses também como uma falta de empatia para com as vítimas dos abusos, ainda mais quando se questiona o dever de indemnização por parte da Igreja. A onda de choque que resultou de afirmações como a do bispo de Beja, D. João Marcos, ou até a do presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas, fez destapar a insuspeitada incapacidade de comunicar, obrigando a recuar nas afirmações lamentáveis, pretensamente por terem sido mal interpretadas e a evidência de que a Igreja não está a falar a uma voz e que se encontra dividida sobre a forma de enfrentar este tsunami que, esperamos, não provoque rombos na credibilidade de uma instituição tão importante na sociedade portuguesa. Esta foi a segunda surpresa. A Igreja necessita agora de ser clara nas suas intenções e transparente nos seus métodos. Para estar conforme com o espírito do Papa Francisco que ontem, dia 13, cumpriu 10 anos de pontificado. Sempre sem ambiguidades, sucessor de Bento XVI, intelectual e guardião da ortodoxia da igreja que renunciou por, julga-se, se sentir incapaz de enfrentar os sucessivos escândalos que aconteciam no seio das Igreja, de entre as mais altas hierarquias. Escândalos financeiros e, principalmente, os casos de pedofilia que se sucediam e que eram já a ponta do iceberg que se avizinhava. O Papa Francisco tornou bem clara a posição firme sobre estes casos e foi isso que muito contribuiu para que, finalmente, se deixasse de esconder os abusos, que já eram conhecidos e denunciados desde há muito tempo. Um Papa que muitos acreditam ser mais amado entre os laicos, do que por um certo setor mais conservador da Igreja.