Edição nº 1918 - 29 de outubro de 2025

José Dias Pires
IGNORÂNCIA ILUMINADA OU BURRICE LUMINOSA?

Tudo tem a ver com o gostar de gostar: uma atitude que o exercício da cidadania exige e a apneia da cor, frequentemente, invalida.
Explico este conceito de apneia da cor: a apneia da cor, ou doença do polvo, é a cegueira às cores que antecede a clarividência (ou a anula para sempre) e determina o espaço em que a visão se reduz a um cinzento quase branco ou quase preto. A apneia da cor é um caminho para a infelicidade social de quem, entre contradições, avanços e recuos tenta promover as “verdades” através de uma contínua repetição de mentiras, porque para si a verdadeira dimensão da sua prestação social é o permanente não gostar de quem é incapaz de colorir o cinzentismo da sua vida.
Na verdade, o gostar de gostar é um acto de humildade, de reconhecimento das limitações de quem gosta e de aceitação das qualidades do que, ou de quem, é gostado. Essa humildade ajuda-nos a crescer e, dessa forma, tantas vezes infrutífera, combater as ignorâncias iluminadas ou, pior, desmascarar as burrices luminosas.
A primeira dimensão do não estar social - a ignorância iluminada - é manifestação cada vez mais frequente, no Império do Latido em que nos estamos a transformar, com acentuado descontrolo, do não querer saber do mal que faz às sociedades o acentuar das desigualdades sem remédio que, recheadas de uma tão brutal ferocidade interior, já pouco distingue os animais dos homens.
Esta questão das Desigualdades Sem Remédio, levam-nos à segunda dimensão do não estar social - a burrice luminosa - que não é mais que a aceitação tácita da diferenciação imposta em que os desigualados (sem remédio) são cada vez menos capazes de utilizar os seus dons naturais para se defenderem e defenderem os seus das afrontas que os estragam, primeiro, e os destroem, depois.
Os desigualados sem remédio são o centro das atenções, os destinatários da mensagem que aqueles que só gostam de não gostar, lhes fazem chegar: a ilusória possibilidade da grande mudança em que os dominados se tornariam dominadores; os fragilizados em fortalecidos e os infelizes, remetidos às sombras, em luminosos sorridentes, em suma: os iludidos em iludidos e possuidores da mesma sabedoria de sempre: a ignorância luminosa dos pouco humildes e a burrice iluminada dos muito incautos.
Assim estão as estradas deste nosso território frio e vazio onde são cada vez menos os que têm algum sentido urbano e não querem pertencer a alcateias ou matilhas humanas, quase sempre compostas por gentes solitárias e egoístas, que gostam de disfarçar o individualismo atávico, que se sentem bem a viver em camadas sobrepostas, organizadas em caminhos retilíneos, paralelos e perpendiculares, e que, mais tarde ou mais cedo, têm sempre um mesmo destino: as saídas das localidades a que chamamos “o olho da rua” para que aí, em total liberdade, possam decorar os seus habitats e tudo o que os envolve, com a ausência vazia da cor verdadeira que se ganha com as emoções e os sentimentos.
Tudo tem a ver com o gostar de gostar, apenas.

29/10/2025
 

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