Edição nº 1929 - 14 de janeiro de 2026

José Dias Pires
O CADERNO DAS PALAVRAS BRANCAS

Assim falou uma coruja chamada Liberdade:
Nem todas nascemos para viver nos píncaros dos campanários e nos galhos extremos das árvores frondosas. Mas todas adoramos a noite que nos permite olhar para dentro do dia adormecido e inclinar a cabeça, curiosas.
Os que sempre nos temeram e nos tomam por inimigas, sentem que a nossa sabedoria os humilha porque eles apenas suspeitam aquilo que percebemos. Passam os dias de olhos escancarados e nada veem. E têm medo. Um medo escorregadio que os empurra para um mundo atarracado, cinzento e precário, onde o ruído das trevas se sobrepõe ao silêncio da luz, sem música, sem palavras e sem companhia.
Nós escolhemos por companheiros os que veem por dentro e sentem, como ninguém, o que os rodeia. Têm um ombro amigo sempre disponível para quem não quer ser ave de campanário, de torreão ou copa. Somos aves de ombro, de bico ao lado da orelha, de conversa comprometida e nada condescendente. Cada uma de nós aprendeu a conduzir e a ser conduzida. Os nossos trajetos desenham-se a partir de máquinas de escrever, gramofones, livros, ampulhetas, acordeões, canetas de tinta permanente e outras peças de coleção ou de memórias. Sabemos que, para nós, o belo é a tranquilidade com que aceitamos a nossa fealdade sem queixumes nem invejas.
Nós, as corujas brancas e cinza com olhos alaranjados, não precisamos dos píncaros dos campanários nem dos galhos extremos das árvores frondosas para saber que ao fundo das nossas vidas existe uma floresta. Há muito que o percebemos nos ombros das nossas companhias que nos ensinam os caminhos onde encontrar quem nos é igual, mesmo que tenha medo de voar, como eu.
Em cada ombro encontramos um pirilampo que nos acompanha nos caminhos das dúvidas absolutas e das certezas relativas. Em cada ombro honramos o que a viver vamos aprendendo, e trocamos a arrogância da sabedoria artificial pela humildade da busca que aproveita o ramalhar das folhas em cada manhã de recomeço.
Trago comigo a vontade conspirativa. Apesar de estar como os sapatos velhos e de começar a já não caber nas minhas roupagens; de os meus ossos insistirem em vencer a pele; das palavras, de tão gastas, me atrapalharem a língua, e dos pensamentos teimarem em não ficar confinados e saírem por já não caberem na nascente, estou como a música que não cabe no pentagrama e os meninos que nunca o foram: não me caibo no tanto que desejo.
Mas quero sorrir. Não me satisfaço em engolir-me bem mais devagar que a vontade. Quero o dilúvio do voo livre para poder deixar em testamento o que não quero perder.
Aqui fica a lista:
Não quero perder as memórias do mar azul, a água infinita, o norte e o sul de todos os olhos capazes de olhar fechados, o sentir do toque das margens da cortiça que são o conforto das árvores, o sossego de dormir com as notas indefinidas do arrulho das pombas, o cantar dos galos, o gritar dos faisões, o apetite de ouvir o que me canta o bandolim do beija-flor e o que me dança o acordeão das cigarras: as semibreves sempre a sorrir para dentro de mim, a vontade sonhar o que as janelas escancaradas me oferecem: as cantatas das paisagens, os entrechos musicais do pôr do sol, as tintas coloridas das palavras gritadas pelas crianças e o ressuscitar das formas simplesmente belas dos desamores juvenis, o voo sibilado das andorinhas e as paisagens sonoras dos gestos banais que, apesar disso, têm aroma de vida.
Não me quero perder nos lugares sem nome, nas cidades cinzentas, na volúpia das pressas caladas e nos empurrões dos relógios que nos obrigam a saltar de ponteiro em ponteiro.
Este é o testamento de alguém que ama a arte que pinta as palavras e que escreve as pinturas através das emoções e dos sentimentos: a música.
Foi a música que me ensinou a não presumir ser artista, mas sim um artífice que descobre a arte que não é a imitação das coisas físicas, nem o transbordar simplista dos sentimentos mais poderosos, antes a intuitiva, pensada, imaginada e sensual interpretação do que é real, sem definições pomposas.
Que a música nos incentive à vontade conspirativa.
Que assim seja e sempre.

14/01/2026
 

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