Edição nº 1940 - 1 de abril de 2026

João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...

NA PASSADA SEXTA-FEIRA, a convite da professora Ilda Cruz, fui à Escola Afonso de Paiva, no encerramento da Semana da Leitura em turmas do 5.º ano, fazer a apresentação e leitura do excerto de um livro à minha escolha. Fui apresentado, entre outras coisas, como o avô da Matilde. Tenho o privilégio de ser o avô da Matilde e de ter sido professor na Afonso de Paiva. E a certeza de estar no sítio certo, na Biblioteca Joaquim Martins, o nosso saudoso amigo como patrono da biblioteca da escola que ele tanto amou e ajudou a crescer.
Sobre o livro, teria de falar dos autores e das razões da escolha. A escolha era de responsabilidade elevada, se queríamos atingir o objetivo de uma Semana da Leitura na escola, traduzida em eficácia medida na mudança ou no reforço da leitura como um hábito diário.
Os livros são, algumas vezes, objeto de culto e há livros que aterram na nossa vida e nunca mais dela saem. Nesta medida, teria de escolher um livro que representasse algo de pessoal. O meu primeiro impulso foi pegar num dos livros juvenis do Manuel António Pina, desde o Têpluquê, passando pelos Gigões e Anantes até às surreais histórias contadas à Ana pelo Escaravelho contador de histórias, todos magnificamente ilustrados por João Botelho. São livros onde o escritor joga, de forma magistral, com as palavras e os sons, histórias carregadas de nonsense que talvez jovens de 10 anos não percecionem logo. Também poderia ter optado por Puff e os Seus Amigos de A. M. Milne. Assumidamente inspirador da obra infantojuvenil de Manuel António Pina, enfrentaria os mesmos óbices, é uma obra que parece simples à primeira vista, mas que carrega uma profundidade emocional e um humor subtil em frases que parecem disparates, mas que são profundamente sábias, o que explica por que razão continua a encantar adultos e jovens quase 100 anos depois de ter sido publicado pela primeira vez. Foi livro lido, capítulo a capítulo, ao meu filho, no ritual do adormecer. Só falta saber se a sua exigência da minha leitura do Puff à cabeceira da sua cama era pelo prazer de ouvir a história ou, passe a imodéstia, pela (obrigatória) companhia do pai.
Finalmente, a escolha recaiu sobre um dos vários livros que contam as aventuras do Pequeno Nicolau, escritas por Goscinny, o autor do Astérix e do Luky Luke, entre outros, com ilustrações irresistíveis de humor e ternura de Sempé. A maneira de diário, escrito por uma criança, usando uma linguagem própria da sua idade, com uma grande carga de humor e muita ironia e perspicácia sobre o mundo dos adultos. O Pequeno Nicolau é, na minha vida de leitor, uma boa e nostálgica memória. Li-o pela primeira vez lá pelos idos anos 60 do século XX e não foi uma leitura qualquer. Alguém o tinha trazido de França, ainda não tinha sido editado em Portugal, e era lido em grupo numa mesa no varandim da Belar, que era o nosso espaço construído de muita cumplicidade. Com o Tó Luís, João Ruivo, Zé Manel Moreira e Zé Manel Castanheira, uma leitura oral partilhada que dava sempre em sonoras gargalhadas.
E foram gargalhadas o que também ouvi durante a sessão de leitura, que terminou com a determinação de muitos de que queriam requisitá-lo para continuar o prazer da leitura. Ler é muito melhor se for uma experiência prazentosa, não uma obrigação.

01/04/2026
 

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