Edição nº 1946 - 13 de maio de 2026

José Dias Pires
UIVAR AO LUAR ANTES QUE CHEGUE A LUA NOVA

Estamos metidos em trabalhos: já só nos faltava tentar conhecer e compreender o verdadeiro devir dos lobos humanos que nos rodeiam que, entre Assembleia de República, televisões e jornais se consubstancia no seguinte:
1 - Descortinar o que é a inconsequente busca do Ancestral Anseio que é a terra prometida dos lobos de que falo, de alguns cães de fila, chacais obrigados, coiotes agradecidos, raposas manhosas e outros parentes nem por isso muito afastados como as hienas hipócritas (os cães gatos que riem da putrefacta desgraça alheia).
2 - Saber como foi possível a inimaginável transformação da Confederação Republicana do Rosnado no Potencialmente Desgraçado Império do Latido, com base na questão fundadora de todas as dúvidas: Rosnar ou Latir?
3 - Aquilatar da importância que, para tal facto, teve o desenvolvimento efetivo de dois conceitos: potencialidade e desgraça.
4 - Denunciar a repetida insistência em duas práticas importadas de outras civilizações: como potenciar a organização da desgraça e como desgraçar a potencialidade da organização.
5 - Tomar boa nota da incapacidade de, na nossa comunidade se ter percebido esta evidência: lobos humanos, cães de fila, chacais obrigados, coiotes agradecidos e raposas manhosas são todos diferentes sem remédio e, por isso mesmo, todos (aparentemente) desiguais, especialmente se comparados com as hienas hipócritas.
6 - Divulgar as causas para o desordenamento: o Albinismo Urbano em que as Matilhas e Alcateias que nunca chegaram sequer a ser aldeias querem tomar conta das cidades, branqueando o passado.
7 - Mostrar a improcedência do orgulho dos dentes, do elogio da dentada (com a língua de fora) e do privilégio do olfato.
8 - Tornar pública a inconsistência da trilogia do viver: as amizades (amigos da trela: amigos da treta), os interesses (a imitação dos humanos: andar a duas patas) e os ciúmes (especialmente dos gansos — os melhores agentes de segurança).
9 - Propagar a dualidade incomum da Alcatilha: ter inimigos de bem parecer (alguns felinos, mas não todos os gatos) e inimigos de mal querer (carraças e outros apêndices).
10 - Promover a prevenção dos medos: da aproximação de pumas, onças, leões, leopardos, linces e tigres todos mal comidos; dos abraços de cobras (principalmente víboras que infelizmente não mordem a língua) e ursos (especialmente os que apesar de o serem ainda fazem uma redundante figura disso); passeios com aves de rapina (especialmente os falcões, pela proximidade do nome); falsa comiseração pelos crocodilos lacrimejantes (pela testa acima) e convívio galhofado com hienas hipócritas (amigos amigos… cadáveres à parte).
11 - Saber, finalmente, como por aqui (entre Assembleia de República, televisões e jornais) se traduz o valor da diligência (busca, busca) e da inteligência (toma, toma).
12 - Assinalar (para não ser generalizado) o Hino da Alcatilha — “Uivar ao luar antes que chegue a lua nova” que passo a mostrar.
Começam os lobitos: «Somos os senhores das serranias, nas noites escuras dos dias e também quando a lua brilha no império da Alcatilha.»
Continuam os jovens lobos: «Nossos dentes pontiagudos deixam sempre os outros mudos e curvam a espinha a quem receia a nobreza da alcateia.»
Completam os Cães de Coleira e as Raposas Manhosas: «Terra do latido uivado, onde o medo é respeitado por quem a mandar obedece e disso nunca se esquece.»
Depois, em coro: «O nosso uivo é a prova, antes de haver lua nova: a nós ninguém nos ofusca!»
Entretanto entram as hienas hipócritas que, em vez de cantar dizem, batendo palmas: «Toma, toma! Busca, busca!»
Voltam, pela mesma ordem, lobitos, lobos, cães e raposas, cantando à vez: «Depois virá a delícia…» «…da obediência sub-reptícia…» «…que a nós ninguém nos ofusca!»
Gritam as hienas: «Toma, toma! Busca, busca!»
Repetem os restantes: «Toma, toma! Busca, busca! Toma, toma! Busca, busca!»
Acompanhadas de uivos e latidos sem brilho, estas quatro palavras finais ficam a ecoar por toda a Alcateia Mor, mesmo depois de todos se terem dispersado.
«Auuu… auuu… toma, toma! Busca, busca! Auuu… auuu…»
Estava consumada a obediência sub-reptícia.
Perceberam?
Uma última ajuda: Os lobos de que falo andam vestidos com peles de cordeiro, casacões. E usam, para não assustar os nossos sentidos, as artimanhas aprendidas nos salões.
Os seus uivos são tão só palavras mansas, e os seus focinhos são níveas faces angelicais, para não meterem medo às crianças e terem assento nas televisões e nos jornais.
Os lobos de que falo são aliados do sangue, do ódio e do dinheiro. Entoam nos seus lábios, transformados, venenosos balidos de cordeiro.
Não viajam em rebanho, mas em bons carros; não assustam, antes devoram, os pastores. As suas almas cospem vomitados escarros que são a má consciência dos ímpios pregadores.
Os lobos de que falo são tão perigosos! e querem sequestrar, de novo, a esperança.
Renovam velhos processos odiosos, para perpetuar a santa aliança.
São novos lobos maus da velha história que se nos querem impor no caminho.
Cuidado, se queremos ser (e ter) memória não podemos ser nós o capuchinho.

13/05/2026
 

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