19 de agosto de 2015

Maria de Lurdes Gouveia Barata
Agosto Incendiado

O Agosto quente, quentíssimo sem folga, motiva a fuga, a mudança para outro lugar, às vezes não concedendo as tréguas do calor. Mas a mudança é cara ao corpo, sobretudo ao estado psicológico. Os olhos precisam de mudar apaziguando o stress das rotinas. Muitos dos que vivem no interior procuram, com avidez, o mar, o intenso azul da orla marítima, a possibilidade de alguma frescura nas noites, a descontracção de uma gargalhada, tão somente porque uma onda nos apanha… Sempre me lembro dos meus dias azuis, mesmo em época de inverno, desde que esteja junto do mar.
É também tempo de regresso de emigrantes a matar saudades das raízes, tempo de multidões e confusão, mas que acrescenta o calor humano do reencontro, da carícia dos corações e da carícia de não fazer nada que tenha relação com as actividades habituais. No Agosto com gosto, que depressa se esvairá, há também o Agosto com desgosto: as aflições dos incêndios que se repetem, os acidentes que para alguns impedirão para sempre partidas e regressos, os vários casos de notícias que falam de contrariedades, revoltas, desumanização de atitudes e é caso de um etc.
A vida da agitação política continua estimulada pela proximidade de eleições, com o sobressalto da mentira, da desconfiança que se instala, incorrendo-se no perigo do cepticismo. Está em causa o poder para quem está ávido de poder, só pelo próprio gosto de consegui-lo a todo o custo, embora haja ainda aqueles que pensam no outro, que detêm um espírito de serviço e solidariedade para melhorar as condições de todos e não só as próprias e as dogrupinho em que se inserem.
Quente Agosto, o dos incêndios, com a dor de alma de ver Portugal envolto no fumo das florestas devoradas, arrepiando os olhos nas imagens abrasadoras que nos oferecem o grito aflitivo das populações, estremecendo os olhos na desolação negra da Natureza calcinada, cerrando os olhos para não ver o horror dum canil abrasado, em que adivinhamos animais mortos depois de intenso sofrimento, ouvindo dentro de nós latidos de aflição.    O fogo assume então um sentido negativo com chamas a correrem pela manta morta dos matos ou a elevarem-se altaneiras, lambendo troncos e chegando à copa das árvores como troféu de um malogro que se exibe no firmamento.
Ouvimos sobre a dureza deste verão longo e ardente, ouvimos sobre projectos de prevenção repetidos todos os anos, ouvimos sobre causas criminosas, as de fogo posto. Andam por aí muitos loucos à solta… mas uns são mais loucos que outros: é que há vinganças ou perspectiva de receber seguros ou interesse de queimar para construir (e temos lembrança do que constou em Sintra num dos anos anteriores) e há os perturbados pelo gosto de ouvir crepitar a floresta e de assistir à confusão das populações. Segundo os jornais,  um terço dos incêndios deflagram à noite. Todos deduzimos o mesmo… Ainda um dia destes, começaram quatro frentes de fogo em simultâneo.
Lembro-me duma notícia do ano passado: uma mulher velha, incendiária, tinha ficado com a obrigatoriedade de se apresentar na GNR um dia por semana como prevenção. A verdade é que tornou a ser apanhada a provocar incêndio. Ainda ficavam muitos dias de sobra para satisfazer gostos macabros… Não seria aconselhável a sua prisão (assim como a incendiários reincidentes) durante o tempo quente?
O desastre ambiental provocado pelos incêndios, a perda angustiada de bens materiais e sentimentais, arrastam terríveis consequências de ordem social.
Já que falo do mês de Agosto, falo deste Agosto incendiado que se mistura nos ventos que estimulam o progresso dos fogos. Falo deste Agosto incendiado por tempo de mentiras e por tempo de verdades duras a que nos últimos tempos nos habituámos, infelizmente. Mas falo também deste Agosto incendiado por paisagens azuis de Verão, por amores de verão, por folguedos de férias, numa pausa para o fogo que destrói, uma pausa que se anima com as coisas boas do fogo da vida.

20/08/2015
 

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