João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
HÁ ALGUNS MESES ATRÁS, eu escrevia aqui que acreditava que no diferendo entre os professores, representados pelos seus sindicatos, e o governo, iria imperar o bom senso. Tinha convicção disso, porque já haviam sido dados passos importantes na resposta a algumas reivindicações, diria que históricas. Entre outras, a que resultava na redução da precariedade do corpo docente. Era uma vergonha para o País e para quem nos governa, que até hoje tivéssemos professores com dezenas de anos de profissão e sempre sem vinculação, sem conseguir aceder e progredir na carreira docente.
Contudo, o que assistimos foi a uma radicalização, com formas de luta que me pareceram em alguns casos de iniciativa pessoal ou de grupo, como greve de fome e acampamentos à porta da escola, com os sindicatos a entrarem num beco sem saída ao desvalorizarem as conquistas e a fazerem finca pé em reivindicações, como a famosa recuperação do tempo de serviço de 6 anos, 4 meses e 2 dias, congelado no período da crise económica e financeira. Um congelamento de tempo de serviço, que afetam outros trabalhadores da Função Pública e que o ministro da Educação não aceita negociar, pelos reflexos que teria nas contas públicas.
Concorde-se ou não com a decisão do governo, a esta posição responderam os professores com a exigência do impossível e o caminho legítimo, mas duro, para um ano de greves em contínuo. Que afetou o funcionamento das escolas, prejudicou seriamente em alguns casos os alunos, principalmente os de famílias mais pobres, as que dependem mais das cantinas escolares e não têm recursos para pagar explicadores que preparem os filhos para os exames nacionais. Um ponto importante para os professores é que, até agora, a maioria da população e dos pais têm compreendido e mesmo apoiado a sua luta. E aqui chegamos ao ponto que justifica este apontamento, a manifestação de professores, parece que eram dez, no dia 10 de Junho, em Ponte da Régua. Sempre juntos do Primeiro-Ministro, empunhando cartazes que caricaturavam António Costa. Cartazes que transmitiam, mesmo que o negassem, uma mensagem racista e de violência, manifestada pelos lápis cravados nos olhos.
Foi uma forma de manifestação de que logo Mário Nogueira, da FENPROF, se distanciou e criticou. Porque tem inteligência política e anda nesta luta já há tempo suficiente para perceber que este tipo de contestação, de manifesto mau gosto, indigna e imprópria de quem é professor é o pior que poderia acontecer nesta fase da luta. Porque há uma quase unanimidade contra os cartazes e de solidariedade com o Primeiro-Ministro. Na outra margem da corrente sindical, vemos um André Pestana a reagir com um nim. O que não é de admirar de quem tem o cartaz há vários meses nas manifestações do seu STOP e nunca se sentiu incomodado. Curiosamente na mesma linha de André Ventura, ambos a apontar a vitimização como estratégia política de António Costa. Em conclusão, é certo que este incidente vai tornar mais difícil e menos popular a luta dos sindicatos, em especial quando se preparam para as greves às avaliações. E aqueles professores de Ponte da Régua esqueceram-se ou, pior, desconhecem, que o professor mesmo no campo da luta pelos seus direitos, é sempre educador e exemplo de civismo para a comunidade escolar.