José Dias Pires
NA DÚVIDA TALVEZ NOS ENTENDAMOS E, QUEM SABE, QUIÇÁ O FUTURO ACONTEÇA
Sonhei que me tinha conseguido transformar em formiga branca, o que me permitiu andar nos corredores dos arquivos e dispensas dos mais inimagináveis museus, e pude ouvir, em surdina, da existência de um chefe que se julga herdeiro de todos os passados e predestinado a imortalizar-se na história. Tal, despertou em mim a vontade de saber se sempre seria verdade o boato do chefe que adivinhava o futuro.
Tentei descobri-lo na Sala Restrita da Biblioteca do Museu do Disfarce onde entrei sem autorização: escondido, entre o Livro dos Livros da Opus Dei - A Vida Sacra, e o Tomo dos Tomos da Maçonaria - O Grande Oriente Orientado, estava um maço de papeis, atado em três voltas de fio barbante, onde se lia o seguinte: Na dúvida talvez nos entendamos e, porventura, quiçá o futuro aconteça
Como tinha muito pouco tempo, li tudo num frenesi e registei, o melhor que pude, as revelações que viria a enriquecer no Museu dos Desperdícios, também conhecido pela Comissão Legisladora das Leis Temporariamente Intemporais. Um caranguejo arqueólogo encaminhou-me para o Museu da Teimosia, também conhecido pelo Hemiciclo dos Debates Inconsequentemente Palavrosos onde aprendi a importância relativa do eco político e a incongruência do eco social.
Comecei a ficar febril, a transformar-me numa formiga cinzenta e, pelo sim, pelo não, decidi ir ao Museu das Mezinhas.
Fiz bem. Não melhorei mas fiquei a saber que podia escolher o tipo de febre que melhor me convém, pois, na verdade, ele há febres para todos os gostos, febres para todas as situações, febres para todos os rostos e febres para todas as ocasiões:
Para os que ruminam pensamentos pouco amenos - a febre dos fenos; Para quem dorme e não trabalha - a febre da palha; Para quem trabalha com o coiro - a febre do oiro; Para quem cala e só protela - a febre amarela; Para quem na rua se afoite - a febre de sábado à noite; Para quem da cepa torta não passa - a febre da carraça.
Ainda febril, fui parar ao Museu da Desorganização Público Privada onde se guardam todas as versões das Constituições de Todas as Repúblicas Significativamente Desorganizadas e nas quais o Prólogo Preambular é sempre o mesmo: A República Significativamente Desorganizada de Coisa e Tal é uma sociedade democrática republicana, laica, mas também religiosa e nobiliárquica na medida de todas as inconveniências e de todos os endireitados direitos.
Vim a saber, já na rua, por um pombo indiscreto farto ser enxovalhado como novo rato público, que os documentos do Museu da Desorganização Público Privada tinham sido recuperados, nos mal tratados jardins do Museu do Compadrio, entre uma moita e um silvado. Apesar de ter sido muito difícil a sua descodificação, fiquei a saber que o prólogo constituinte se completava com o seguinte: Se houver um dever que nos convença, pode afirmar-se que não há passado, nem presente, nem futuro: à nossa volta apenas um muro: o da indiferença.
Uma rabanada de vento levou-me, através da fisga da porta, a uma despensa do Museu da História Mal Contada cheia de molhos de papéis atados, onde encontrei um documento que me pareceu estruturante da nova realidade política de qualquer República Significativamente Desorganizada de Coisa e Tal: o preâmbulo do Tratado de Todas as Desconfederações:
Considerando que: O povo é quem mais ordena, mas não quem mais ordenha e que apesar dos pesares, das sortes e dos azares todos somos mais ou menos povo, não há razão para a ignorância. Considerando ainda, e finalmente, que é sentado, refastelado, encostado e descansado que se fazem as mais tranquilas revoluções e se tomam as mais definitivas decisões (porque depois de tomado o que tomado está, tomado fica) os povos de qualquer República Significativamente Desorganizada de Coisa e Tal decidiram desconfederar-se e constituir a Regiões Outrora Tidas como Autónomas, aceitando o que adiante articulado fica:
Artigo único — Desconfederados e ponto, talvez nos entendamos; numa pitada de anarquia, talvez nos estendamos; num mínimo de organizada desorganização, talvez sintamos a definitivamente provisória diferença entre o sim e o não (o talvez) e, por isso, sentados talvez compreendamos o verdadeiro valor do descalçar dos sapatos numa democrática compulsividade onde talvez se atenue o que nos divide na verdade.
Contou-me uma aranha que foi por causa disto que os putativos governantes tomaram conta das redes sociais e creem que a partir daí podem governar, sonhando poder regulamentar a vidas de todos nós e, quiçá, um dia, talvez, a organização política de qualquer República Significativamente Desorganizada de Coisa e Tal, por ventura, nos próximos cinquenta anos!
Desalentado por tal revelação cheguei ao Museu do Desinteresse onde em letras garrafais havia um letreiro que dizia: Entra, senta-te e espera que venha o diabo e escolha. Anunciava-se, assim, a chegada do chefe?
Antes que o sonho me pusesse perante a sola de uma bota, acordei.
Acordei preocupado, pois não sei se, na verdade, na dúvida talvez nos entendamos e, quem sabe, quiçá o futuro aconteça.