João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
QUANDO UM POVO ESTÁ DESESPERADO e já não acredita nas instituições democráticas, acontecem fenómenos no mínimo estranhos. Por exemplo, a eleição de um louco que não pode dizer ter enganado seja quem fosse, porque em campanha anunciou de forma clara que iria destruir as estruturas do Estado que na Europa entendemos como Estado social. Estamos a falar da eleição de Javier Milei para presidente da Argentina. Num país que vive há vários anos numa crise social e económica profunda, com inflação acima dos cento e quarenta por cento e uma taxa de desemprego alta, em particular entre os jovens, um contínuo empobrecimento da população e falta de competitividade económica, acontece aquilo que teria de acontecer. A falta de soluções para a saída da crise, leva ao apoio a políticas radicais, fraturantes. No caso da Argentina, a escolha de um caminho que é o oposto ao do peronismo que a levou até ao desastre.
Javier Milei que se auto intitula de anarcocapitalista, conduziu uma campanha com o lema da “Liberdade carajo”, revelando que os seus conselheiros políticos são os seus cães clonados, com quem conversa regularmente, defendendo a venda livre de armas e de órgãos humanos e o fim de ministérios essenciais à função social do Estado, Saúde, educação e desenvolvimento social, que passariam para a esfera privada. E como forma de combater a inflação, quer acabar com a moeda argentina, o peso, e fechar o banco central. Basta acabar com o Estado para que a riqueza venha já a seguir, nascida do nada. Enfim, é difícil de entender como um programa ultraliberal de extrema direita como este, seja apoiado nas urnas por 55 por cento dos argentinos. Como era de prever, Bolsonaro e Trump, estrelas guias de Milei, rejubilaram. Por cá, não se viu grandes manifestações de entusiasmo por parte de Ventura. Talvez porque ele sabe que em Portugal, a defesa de um programa político como este seria a morte do artista.