Joaquim Bispo
AS INCERTEZAS DE CRPT
Quando Crpt se religou, encontrou-se sentado na zona de acesso às partidas aéreas da cidade arqueológica de Ur. De imediato, detetou o imperativo de entregar uma mensagem, impregnada na sua área encriptada, dirigida ao arqueólogo “Gilgamés”. A instrução de ação era clara - “A mensagem deve chegar à Casa Branca na véspera de Natal do ano 2899” -, mas o que isso significava era um completo enigma.
Tratou de consultar mentalmente a enciclopédia interna de acesso expedito. Ficou a saber que Natal era uma primitiva data religiosa, que se transformara numa festividade frívola, realizada pelo solstício de inverno do hemisfério norte, e que o significado principal de Casa Branca era o de um antigo edifício de comando mundial, situado numa das zonas irradiadas na última Guerra do Petróleo. A escavação arqueológica do local era uma das mais prometedoras da Zona Oriental.
Para o esclarecimento de data tão bizarra, não havia qualquer pista. Decorria o ano 643 da era de Wu Wang; Para 2899 faltava uma eternidade. Provavelmente, nem o seu corpo, frequentemente exposto a radiações corrosivas, duraria tanto, apesar de ser fabricado com as mais dúcteis e resistentes ligas biometálicas e com tratamentos autorregeneradores. Havia, com certeza, um erro na data indicada. Ou, quiçá, uma charada a resolver na própria instrução de ação, o que o destinatário sob pseudónimo prenunciava. Qualquer das hipóteses era pouco verosímil, dado o rigor normativo habitual das comunicações.
Uma pergunta começou a dominá-lo: «o que esperaria dele o comando da Delegação de Kandahar, numa situação como esta?» Enviou um pedido mental de iluminação ao Conselho Central, mas o silêncio foi a resposta. Sentiu-se abandonado, mas depois reagiu, confiando no permanente controlo da Delegação, ainda que silencioso, sobre o seu livre-arbítrio.
O melhor a fazer seria entregar a mensagem sem demora. Mas, «porquê tanto enigma na instrução de entrega da mensagem?» É certo que não lhe competia questionar, mas obedecer. Devia fazê-lo, embora sentisse que, apesar do imperativo subjacente, tinha autonomia para desobedecer. Mas, se contrariasse este, podia correr o risco de fazer algo pernicioso para o Homem. E isso era o pecado máximo. Por outro lado, a mensagem saía muito da rotina, a começar por não conseguir identificar a entidade que inculcara a mensagem encriptada no seu âmago.
O seu trabalho era transportar informação classificada entre o centro arqueológico de Ur e a Central. Lembrava-se de todas essas viagens, mas, desta vez, só se recordava da preparação da viagem para a Região do Meio e de se religar já na estação aérea, com instruções para se dirigir à Zona Oriental.
Obedecendo à imposição imanente, cuja origem desconhecia, estaria a servir o Conselho Central dos 21 sábios de Wuhan ou a ser usado para fins proibidos, talvez por uma entidade revoltosa? Esta última intuição perturbou-o. O que menos queria era ser manipulado por entidades perniciosas para os Homens.
Pensou, computou algumas das hipóteses prováveis para a explicação da situação e decidiu-se. Não seguiria para a Zona Oriental sem ter algumas pistas sobre o teor da mensagem que transportava, ou a entidade de origem; também não iria a Kandahar revelar as suas hesitações sobre a missão de que estava incumbido; nem voltaria à escavação de Ur a queixar-se de angústia e a tentar obter respostas. A existir uma hipotética alteração da sua estrutura inconsciente, provavelmente, fora lá feita.
Como que respondendo a esta intenção de desobediência, uma angústia asfixiante invadiu-o. Olhou em volta, mas apenas ao longe divisou outras unidades cibernéticas autónomas.
(Continua...)