Lopes Marcelo
PARAR E REAPRENDER
A gravidade e a persistência da pandemia em sucessivas ondas sobressaltam e questionam os valores da nossa sociedade. Haverá quem considere que se trata apenas de uma questão temporária de alteração das regras comportamentais, da necessidade de respostas técnicas, de cuidados com a etiqueta respiratória e suficiente distanciamento a curto prazo, com a solução científica da vacina a médio e longo prazo. E que, portanto, o que é preciso é não fazer nada pois, mais cedo ou mais tarde, tudo voltará à dita normalidade anterior.
Há, por outro lado, quem entenda que é necessário e urgente aproveitar a forçada paragem para questionar o modo de vida, as prioridades, as características e o sentido da dita normalidade. E, com tal reflexão, reaprender a atitude de se valorizar o que é essencial na vida, em cada vida, em coerência com as melhores condições de realização pessoal, de forma digna e solidária em íntima articulação com a natureza. Pelo que tenho escrito nesta janela de diálogo mensal com os leitores, situo-me no grupo dos que procuram reflectir e questionar. É o que volto a fazer hoje, centrando-me nas idades dos mais jovens.
Na evolução consumista da nossa sociedade, de se querer tudo depressa e sem capacidade em se adiarem e construírem as recompensas, na competição individualista do vale tudo para se ser o melhor, onde está o tempo da infância das nossas crianças? Onde está o tempo para brincar ao ar livre em contacto com a natureza? Os adultos formadores, quer na família, quer na escola, pretendem regra geral que as crianças e os jovens cresçam depressa, moldados e ocupados. É sob a batuta do não imperativo: não faças isso, é perigoso! Não vás por aí! Não agarres isso! Fica quieto, podes magoar-te! Cala-te, tu não sabes nada da vida! E, os adultos, tudo organizam e programam no sentido de formatarem as crianças e os jovens à sua imagem, modo de sentir, de ver e de agir como adultos. Sem o saberem em termos académicos actuam conforme ditava a tristemente célebre “teoria do homuncúlo”, que se revelou pedagogia castradora do desenvolvimento criativo da personalidade das crianças e dos jovens, já que considerava a criança desde muito cedo como um adulto em miniatura. Contudo, os adultos, na sua pressa de puxarem pelas crianças e jovens, organizam-lhes os tempos livres com várias ocupações de múltiplas especialidades artísticas e ou desportivas, programando todo o seu tempo numa correria de agenda apertada e, até, asfixiante. Parecem crianças e jovens perfeitos, mas quanta acumulação de ansiedade, frustração e stress que tantas vezes se descontrola mais tarde ou origina depressões e reacções com violência.
Estão as nossas crianças e jovens a terem oportunidades de desfrutarem do seu tempo e ritmo próprios com dificuldades e desafios que as preparem para a vida ou, rodeadas de tudo sem terem de conquistar nada, sem terem oportunidade de entenderem de onde as coisas vêem e o que custaram, já são exigentes e autómatos consumidores até do que não precisam? É este o caminho que as fará ganhar confiança e auto-estima em si próprios?
É este o processo formativo que favorece nas crianças e nos jovens a construção da sua fortaleza interior enraizada na família e na comunidade, inspirados na identidade cultural, na história e nas tradições que os antecederam? Perante as dificuldades, são apoiados e estimulados a tentarem, a não desistirem? A encaixarem as derrotas e a saborearem as vitórias?
Todos sabemos que a autoridade mais genuína e eficaz é a do exemplo, assim a imitação pelas crianças do modelo de vida dos adultos é incontornável pelo que o desafio é de todos.
Serão os adultos capazes de ultrapassar a comodidade do império dos sentados, do consumismo fácil, do tempo do sofá e da actividade virtual que mais movimenta a ponta dos dedos num ambiente de pesado silêncio sinónimo de quase ausência de diálogo, de convívio e de partilha que tanto condiciona o crescimento inter-pessoal criativo?