Edição nº 1784 - 15 de março de 2023

Maria da Luz Lopes
INSTANTES, NO FEMININO

A propósito da efeméride do passado dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, deixo-vos, a convite deste jornal, uma modesta reflexão pessoal, sobre o assunto em apreço. Sou uma mulher albicastrense, “ratinha”, como o resto da família, alentejana, tinha por hábito chamar-me em miúda. Componho a minha história há mais de cinco décadas nesta cidade, que me viu nascer, crescer, onde fiz a minha formação académica inicial e onde construi o meu projeto de vida, pessoal e profissional, apontando sempre cabeça, pés e mãos, em direção ao caminho de uma construção própria, emancipada, na família, no trabalho, na comunidade e na sociedade em geral. Aprendi, desde cedo, pelo exemplo de uma mãe lutadora, que o lugar da mulher não se pode abreviar a uma existência de bastidores, anónima, subestimada e oculta, mas sim ao direito a um papel principal, no palco da vida, como protagonista das histórias que todos os dias, em todas as partes do mundo se escrevem com um nome de Mulher.
Relembrando um pouco da cronologia dos factos, este dia, 8 de março, é fruto de lutas internacionais pelos direitos das mulheres. Ele surge após acontecimentos marcantes nos Estados Unidos desde 1857, em que, à época, a produção fabril e a manufatura era ocupada maioritariamente por mulheres, pagas com salários miseráveis e obrigadas a cumprir jornadas de doze horas de trabalho. Após manifestação nas ruas de Nova Iorque, foram reprimidas, presas e ameaçadas. Passado meio século, em março de 1908, quinze mil operárias voltaram às ruas por “pão e rosas”, por aumentos salariais e melhores condições de vida. Em março de1909 assistiu -se à primeira grande tragédia decorrente da resistência e luta laboral das mulheres, onde cerca de 140 jovens mulheres sucumbiram num incêndio de uma fábrica têxtil onde realizavam greve ao trabalho, reivindicando igualdade salarial e redução da jornada laboral para dez horas. Foi depois em 1910, em Copenhaga, Dinamarca, na segunda conferência internacional de mulheres socialistas, que a feminista e sufragista alemã Clara Zetkin propõe a criação de um Dia Internacional da Mulher, não só em homenagem às trabalhadoras mártires dessa luta, mas como data universal de manifestações anuais pelos direitos das mulheres, na igualdade e no direito ao voto. O ano de 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e o dia 8 de março adotado como o Dia Internacional da Mulher pelas Nações Unidas, lembrando as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Em Portugal destacam-se Ana de Castro Osório, como autora do primeiro manifesto feminista português e Carolina Beatriz Ângelo, vanguardista da sua época, primeira mulher a votar para a Assembleia Nacional Constituinte em 1911. A data veio sendo assinalada em todo o mundo, como dia de protesto ou simplesmente de comemoração no feminino. A comemoração, entendida como festa de celebração é por isso legítima e pertinente, desde que, não se esvaia de sentido, pois é indispensável que todos possamos refletir acerca do progresso ao nível de direitos humanos, e honrar a coragem e determinação das mulheres que ajudaram e continuam a ajudar a redefinir a história, local e globalmente.
Num país ainda muito enraizado em estereótipos de género e padrões antigos que reproduzem continuamente os mesmos esquemas culturais, há um longo caminho ainda a percorrer. É sabido publicamente que as desigualdades entre homens e mulheres se têm vindo a esbater ao longo dos anos, assistindo-se nos últimos tempos a um aumento significativo de mulheres em determinados setores profissionais, como na justiça por exemplo, mas é também sabido que continuam bem presentes as discriminações no mercado de trabalho. Segundo um estudo do Expresso, de 2022, as mulheres portuguesas são mais qualificadas, mas mais precárias, têm uma maior taxa de desemprego e ganham, em média, menos que os homens. De salientar ainda todo o tipo de sexismo, normal e socialmente aceite, que está presente em toda a parte, afetando sobremaneira as mulheres desde a infância: enquanto rapazes são incentivados a correr, ser ativos e a ter apenas brinquedos de rapaz, das raparigas espera-se que sejam passivas, doceis e brinquem com bonecas; o sexismo entra nas nossas casas pelos anúncios de publicidade, pelas revistas estereotipadas, pelos jogos de computador; está presente nas nossas casas quando as mulheres continuam a desempenhar muito mais tarefas domésticas não remuneradas e a acumular sozinhas papeis profissionais e sociais; está no local de trabalho quando são ignoradas, preteridas ou penalizadas pela maternidade e assistência à família; manifesta-se em tribunal, quando uma vítima de violência sexual ouve dizer que “ela é que provocou, estava mesmo a pedi-las”; está presente quando achamos que há desportos específicos para cada género; quando os homens que tomam conta dos filhos são troçados; quando mulheres que se dedicam à política são silenciadas com piadas de mau gosto ou comentários sobre o seu aspeto; encontra-se nas redes sociais, quando mulheres e raparigas são rebaixadas com críticas ou ataques de cariz sexual. A autoestima, a ambição e as expetativas das crianças são as primeiras a sofrer o impacto dos estereótipos de género e não constituem uma agressão apenas contra as mulheres, mas antes, uma agressão contra todas as pessoas, criando uma sociedade formatada, preconceituosa e insegura, onde não cabem as vozes, os talentos ou as lideranças diferenciadas, onde não se respeita a diversidade, conduzindo, nos casos mais graves, a situações de violência. A Associação Contra o Femicídio, deixou-nos, a 8 de março, um alerta: “os femicídios têm vindo a aumentar em todo o mundo permanecendo frequentemente impunes, o que não só intensifica a subjugação da mulher, como confere à violência contra as mulheres algo de inevitável e aceitável”. Educar para a cidadania democrática, eliminando clichês e comportamentos associados, deveria ser prioritário para qualquer sociedade, começando no seio das famílias e complementarmente com um trabalho pedagógico das escolas. Não podemos desejar ter um estado de justiça plena, se não refletirmos sobre a ausência de igualdade na sociedade, se não esbatermos os mitos e preconceitos responsáveis pelo fosso social, político e económico, entre homens e mulheres.
Após um século de luta, assinalamos mundialmente este dia, com tanto ainda por fazer. É inegável que houve avanços e conquistas, muito, graças aos movimentos feministas, reivindicações e políticas progressistas que têm modificado a nossa cultura social. Mas também é verdade que as mulheres gozam de uma “igualdade por decreto”, que ainda não se verificou na sua plenitude. Alguém disse que o século XXI seria o século da igualdade, mas, infelizmente, os dados apontam para uma realidade diferente onde subsistem os valores dominantes de uma sociedade patriarcal, a manutenção absurda de desigualdades injustificáveis e o silêncio cúmplice diante da violência de género. Já é hora de que as mulheres participem em iguais condições na gestão do mundo, para o bem da humanidade… afinal, a nossa missão maior é dar e preservar a Vida.

15/03/2023
 

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