Edição nº 1927 - 31 de dezembro de 2025

José Dias Pires
UMA REFEIÇÃO APARENTEMENTE GRATUITA

Época de prendas: ofereço-vos uma fábula anotada (notas estas que serão, prometo, a parte mais interessante deste texto) que sendo sobre um pato e outros animais, é, como verão, bastante humana.

EIS, POIS, OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DE UMA REFEIÇÃO APARENTEMENTE GRATUITA
Depois de concluída a formação superior (1) colocava-se ao pato (2) um desafio novo: saber exatamente as razões dos que, movidos só pela tradição, vão devorando, um a um, todo o seu povo (3), fazendo-o prato nobre nas refeições de arroz.
Definido o universo a estudar (4), o pato preparou, com cuidado, o instrumento da investigação, sem descuidar, na recolha, a própria imagem. E o espaço que encontrou para entrevistar quem o desejava ter gratuitamente por alimento foi a gruta situada na margem do rio onde costumava nadar. Chegou-se a ele o lobo faminto, (5) e disse:
- Pato, vou-te comer, com penas e tudo. Tem paciência!
- Está bem, eu sei que é esse o meu destino - retorquiu-lhe o pato com matreirice. - Mas, se não te importas, come-me com decência, dentro desta gruta, que é mais fino.
Seguiu-o o lobo, entre salivas, ao imaginar a fácil refeição que tomaria debaixo de um tecto aconchegado. Dentro da gruta o que se ouviu foi de pasmar: por entre uivos e muita gritaria o fim do pato estava traçado. Passado algum tempo, as asas esfregando, saiu a ave do local do sacrifício.
- Já terminei, com êxito, a primeira entrevista! - grasnava.
Quando, de novo, se aproximou da margem, deu de frente com outro entrevistado de ofício semelhante ao anterior: uma raposa (6) que lia, distraída, uma revista.
- Não espero que me digas, eu me ofereço para ser por ti comido, raposinha! - disse o pato, como se fosse esse o seu destino. - Só há uma coisa que te peço: come-me lá dentro, na cozinha que há ali na gruta, que é mais fino.
E a raposa, aceitando esta proposta, seguiu a sugestão que dada fora, e foi comer o mal asado dentro da gruta. Ouviu-se, de novo, uma algazarra descomposta, e, passada bem menos de meia hora, saiu o pato, vencedor daquela luta (7).
- Corre-me bem este meu estudo. É bom o material para a tese a redigir - pensava o dito cujo em voz alta.
Na verdade, não necessita sequer de inquirir se há ainda algo que lhe falta, quem das entrevistas aproveita tudo. Dentro da gruta, descansado, estava um leão (8), que esperava os candidatos a devoradores do pato, cuja tese de doutoramento orientava, e sem favor.
Moral da história: Cada vez mais, para uma qualquer investigação pouco importam os valores (9) do doutorando, se for forte o poder dos orientadores (10).
Notas:
1 - Formação superior - Imagino que, apesar de toda a profunda formação e informação que podemos observar nas muito interessantes leituras disponíveis, com as quais se aprende muito sobre a inveja da lua perante o sol e vice-versa, assim como sobre as orientações da respetiva governança a que tantos pertencem, também fiquei a compreender melhor os conselheiros e assessores que os rodeiam, e ainda me enriqueci cientificamente sobre como se destrói sem remorso, mas com alguma aventura, a escolha pública. Tudo livros muito interessantes sobre a (des)orientada ação pública, publicada e política nestes tempos de tentativa da promoção de sombras.
2 - Pato - Refiro-me à imagem que me tem ajudado a construir com um pouco de todos e cada um (ou uma) de vós (nós): o pato lunar, também conhecido como Pato de Jade ou Chico Esperto que, segundo aprendi num dos tais livros, é um palmípede que vive na Lua, portanto muito longe da realidade terrestre, e do qual os chineses muito gostam e os alemães respeitam, importa lembrar, o mesmo é dizer: tal pato somos todos e cada um (ou uma) de vós (nós).
3 - Povo - Os confrades em geral, mesmo os que ansiavam ver-se num qualquer pelouro burguês, iludidos com a leitura do resumo de uma obra muito antiga (A Ambição no Seu Pior e em Discurso Direto).
4 - Os investigados - Os “grandes educadores sociais do facebook e similares plataformas”, que falam muito e nada fazem ou sabem fazer. Deles dizia o meu avô que é muito fácil falar, o pior é fazer, e o meu sogro que para mandar qualquer porcaria serve, para fazer, e bem, é que é um problema).
5 - Lobo faminto - O lobo faminto é, nesta fábula, quem muito bem quisermos, basta que às perguntas seguintes respondam em conformidade. Que fizeram? (Nada!) Concretizaram ideias? (Nem pensar!) Lideraram as mudanças? (Isso é que era bom!) Confiaram nos seus concidadãos? (Claro que não!) Deixaram-se comer? Ops!
6 - Raposa - A raposa é aqui uma figuração coletiva de alguns gatos dos sacos onde tantos sempre quiseram pertencer.
7 - O resultado da luta - Caso se tratasse de mim ficaria triste por tal vitória, pois é sinal de desonestidade intelectual ser-se forte com os fracos, ainda por cima distraídos na ilusão da inevitabilidade, e pior: cobrar-lhes o desenfreado apetite pelo que se consegue de borla!
8 - Leão - Aqui o leão é apenas a máscara do verdadeiro pato chefe, aquele, que nos tempos do circo saiu do bolso de um ilusionista ou do chapéu de um aprendiz de feiticeiro, e que hoje, usando dentes postiços e luvas com garras afiadas, vive escondido numa qualquer gruta, acompanhado pelos apóstolos da desgraça.
9 - Valores - Ora, os valores! Os valores hoje são outros, não é? São os mercados sem rosto (mas com o dinheiro da especulação desenfreada), os interesses privados (coloridos de públicas virtudes e com muita inteligência artificial) e os desígnios menos democráticos que a eles estão associados, naturalmente.
10 - Os orientadores - Este é, nos nossos dias, o principal problema: não nos conhecem, nem lhes interessa conhecer-nos - e, pior, sabem isso muito bem, não falam a nossa língua mas fingem compreendê-la! Ah, é verdade, os orientadores têm por cá uma espécie de intermediários, ou delegados, que se sentam com tantos de vós (nós) à mesma das conspirações e da maledicência, mas que merecem, talvez, uma fábula só para eles, um dia destes.

31/12/2025
 

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