Elsa Ligeiro
OS OPERÁRIOS DA DIELMAR
Todos sabemos que cada caso é um caso; e numa vida, a existência pessoal e singular não se presta a comparações. E que nenhum número deve esconder a tragédia pessoal de quem fica no desemprego.
Este Natal não consigo esquecer a notícia espalhada na capa de um jornal sobre o despedimento coletivo de 22 trabalhadores da Dielmar.
A confeção é um sector de trabalho feminino, de uma vigilância implacável, e de proveitos a roçar a exploração, mesmo em pleno século vinte e um e num país europeu como o nosso; para não falar em países onde ele é um trabalho escravo.
Sei do que falo, fui operária durante 12 anos na empresa de confeções Dielmar, fundada por alcainenses; e que após décadas se transformou numa empresa com gerência de outra empresa que vive de salvar projetos com apoios estatais (não, não descobriram a pólvora, limitam-se a juntar apoios e isenções fiscais para exercerem o capitalismo tão selvagem como o anterior, apenas com a capa social de salvadores de empresas para se apresentarem heroicamente à comunicação social).
É o mundo empresarial do século vinte e um; que vive de engenharias financeiras, mas que na realidade continua assente num trabalho mal remunerado; não para chefes ou gestores, apenas para os operários.
Um mundo de gente gananciosa disfarçada de empreendedora; que tendo 100, pretende ganhar 1000 como qualquer bom capitalista que se preze.
Claro que gerem bem as relações públicas e a narrativa de homens providenciais que cavalgam as ondas mediáticas, especialmente em tempo de eleições.
Criar drama e em seguida a milagrosa solução faz parte da telenovela que todos (mais ou menos) consumimos.
O mundo real pouco importa; e poucos pensam nele.
Fui operária na segunda metade dos anos 70 e grande parte dos anos 80 do século vinte; numa empresa sólida, com lucros bem evidentes, cujo discurso era sempre o aplauso à gerência.
Quis o meu destino que também fosse delegada e dirigente sindical, numa empresa em que nos finais dos anos 70 ainda não havia sindicato.
Creio que de todas as minhas batalhas pessoais, a de delegada sindical foi a que mais conhecimento me trouxe.
Eu já era uma boa leitora dos poucos livros que conseguia juntar. Naquele tempo as enciclopédias ainda eram a única fonte para quem queria saber tudo do mundo obscuro e imenso que nos rodeava.
E lia, e espantava-me, e não entendia bem; e continuava a ler a história da economia, a história das ideias políticas; enfim, lia tudo a que conseguia deitar mão; embora a poesia fosse, mais do que qualquer manual da misteriosa história da humanidade, o caminho mais claro onde eu reconhecia a explicação do sol e da sombra do mundo que me rodeava.
Já o disse, nos finais dos anos 70, em Alcains, na Dielmar, não existia sindicato. A empresa orgulhava-se (e bem) de ter criado emprego para centenas de jovens mulheres, não só de Alcains, mas das freguesias limítrofes, a quem facilitava transporte.
O problema é que perante algumas situações sociais, o patronato tendia a olhar para os trabalhadores (ou devia escrever trabalhadoras?), com discriminação para quem ficava doente ou precisava de acompanhamento médico na maternidade, ou, ainda por qualquer outro motivo, faltava ao trabalho.
Perante essas situações reais, não conseguia desviar o meu olhar perante a injustiça da perda de rendimentos de quem mais necessitava deles.
Tenho, dessa fase, histórias trágico-cómicas que espero um dia poder contar com tempo. Mas um dos grandes momentos da minha vida surgiu quando eu já na condição de delegada sindical, decidi divulgar, em cartaz, fragmentos do extenso poema “O Operário em Construção”, de Vinicius de Moraes.
Passei um fim de semana no trabalho “gráfico” de colagens; para o expor, bem visível, na segunda-feira, no quadro destinado à informação sindical.
Modéstia à parte, estava uma mensagem que não deixaria indiferente quem o lesse.
A exposição do cartaz durou escassas horas, pois, no intervalo para o lanche da manhã, o cartaz tinha desaparecido.
Perante o meu desespero, a responsável do refeitório lá me informou que tinha sido o filho de um dos fundadores da Dielmar; e já responsável na empresa, a deitá-lo no lixo.
Creio que foi nessa hora que nasceu uma verdadeira delegada sindical e mais tarde dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Sector Têxtil da Beira Baixa.
Perante a ofensa à liberdade de expressão, debitei em pleno refeitório, atabalhoadamente, mas com todas as minhas forças, medos e dúvidas, o meu primeiro discurso, perante centenas de trabalhadores, contra a prepotência de quem não aceita uma opinião contrária nem convive com a diferença; e, sobretudo, não respeita a existência frágil dos outros.
O meu primeiro discurso, que mantenho. Até hoje.