Carlos Semedo
CORAÇÕES GELADOS
Algum do meu tempo livre é passado numa perspectiva exploratória do território. Numa primeira fase, percorri as linhas dos rios Ocreza e Ponsul, sobretudo no concelho de Castelo Branco. Depois, fui explorando outras zonas até ir intercalando com visitas a concelhos contíguos ou próximos. Já são largos anos a acompanhar o pulsar das estações, dos dias e horas, nos montes, serras, cabeços, vales e muitas vezes a pé, pelas ruas, veredas e caminhos.
Posso testemunhar uma realidade ambivalente. Terrenos cuidados e trabalhados ao longo do ano convivem com outros, abandonados à sua sorte. Vastas zonas fustigadas pelos incêndios do início dos anos 2000 a recuperar com vegetação autóctone ou pinhal, ou substituídas por extensas manchas de eucaliptal. Em algumas, poucas, zonas de pinhal, a extracção da resina parece ter regressado como actividade económica. Encontro muitas estradas com as bermas cobertas de vegetação, por vezes durante todo o Verão.
Nas muitas conversas que vou mantendo com pessoas que encontro no terreno, a linha não difere muito. “A vida do campo, seja no cultivo ou na criação de gado, é muito exigente e cada vez há menos jovens disponíveis para isso.” Outra variante: “A malta quer é ir viver para as cidades e vir cá para a festa.” No contraditório também me acontece um esperançoso: “Olhe, agora têm vindo uns estrangeiros, que compram casa e aqui fazem a vida” ou “gosto de ver quando as casas da aldeia são recuperadas e ganham vida pelo menos ao fim-de-semana.” A proporção é muito desequilibrada, mas há algum movimento que contraria este tsunami que empurra todos para o litoral.
Quando dei conta da dimensão dos incêndios de Pedrógão Grande e Góis, o meu coração gelou, pois é um território no qual passo com frequência, embora não pertença às minhas zonas exploratórias de eleição, a chamada Beira Baixa e o Norte Alentejano. À mesma hora, a tempestade abatia-se sobre Castelo Branco, com ventos fortes e uma chuva diluviana. O meu coração gelou pelos efeitos que, adivinhava, viriam a ter na paisagem, essa parte do nosso património íntimo, e a devastação causada nos bens e nas vidas dos residentes na zona. Não podia adivinhar a dimensão de tragédia que a perda de vidas humanas iria colocar na nossa frente de forma avassaladora.
Quando estamos, no caso dos incêndios em causa, tão perto de Coimbra, no distrito de Leiria e a pouco mais de uma hora de caminho para Lisboa, não sei se faz sentido falar de interior no sentido que nos querem obrigar a usar: o interior como uma espécie de fatalidade terrífica decorrente da qualidade de periferia.
Ora interior significa, também, mais perto do centro, coração, seio e âmago.
Para mudar tudo o que é preciso, basta deixar de olhar para Lisboa como a única possibilidade maternal para o país e ver o coração de Portugal em todo e qualquer cantinho, por mais recôndito que pareça. Sei que é das mudanças mais difíceis de operar, mas é a mais necessária e, acredito, está nas mãos e no âmago de cada um, como uma possibilidade de futuro. Para além das mudanças operacionais e técnicas que decorram de uma avaliação do que se passou, no discurso e na prática é esta a mudança cultural que é necessário promover. O interior está tanto na Av. da Liberdade, como na Rua Principal de Malhada do Servo.